Sexta-feira é um dia dividido em alegria e cansaço. Alegria por mais uma semana que chega ao fim, e o cansaço de toda uma semana corrida. Para Sebastião não foi diferente. E o pior é que ele se sentia mais cansado do que feliz. Não que não fosse feliz. Estava passando por uma ótima fase. Só que o que mais queria era poder aliviar a dor nas pernas que sentia. Tanto que, ao chegar em casa, logo deitou no sofá, esticou as pernas e suspirou aliviado. Sua mãe chegou perto e gentilmente começou a tirar seus sapatos, mas Sebastião recusou, dizendo que ela não precisava fazer aquilo, e que deveria ocorrer ao contrário. Ela nem deu ouvidos, dizendo a ele que ela fazia aquilo com maior prazer, já colocando s pantufas no lugar dos sapatos pretos que Sebastião usava.
Após fazer um lanche, atendeu a ligação de um amigo que o convidava para sair, dar uma volta, conversar e aproveitar a última sexta antes do reinício das aulas. Apesar do forte cansaço, e de ter alguns compromissos no sábado pela manhã, aceitou o convite dos amigos. Afinal, ao iniciar as aulas, Sebastião não se daria o luxo a saídas nas sextas, nem nas quartas, nem dia algum. Portanto, após um banho relaxante, Sebastião pediu o carro ao pai, ligou o som, curtindo um bom e velho ACDC, e pé na tábua.
Foi até a casa do amigo, que já o esperava, e depois passaram para pegar o resto da turma. O resto correspondente a mais duas pessoas. E lá se foi o quarteto rumo ao bar jogar uma sinuca. O bar não é bem um bar, é um lugar propício a sinuca, pois só o que tem lá são inúmeras mesas de sinuca, e um monte de gente jogando. Apesar de se comportar, ele pensava se era prudente sair assim, afinal tem namorada, a respeita muito e ama demais. Jamais deseja magoá-la. Mas eu não vou fazer nada de mau. Vou jogar sinuca com os amigos, conversar, e depois vou prá casa. E assim seguiu jogando, pois não estava cometendo nenhum crime, afinal.
Sebastião jogando sinuca é uma viagem. Ele adora jogar, e quem vê pensa que ele joga muito. Mas ele num passa de um vesgo jogando. Não tem calma, e só acerta as bolas que estão quase dentro da caçapa. E olha lá, hein?! Ele, antes de executar uma jogada, promete para si mesmo que irá se concentrar, mirar bem a bola, jogar com calma. Mas na hora H, ele esquece do que mentalizou e acaba se afobando. Só depois de empreender uma péssima jogada é que se dá conta da quebra de seu próprio juramento, deixado de lado pela emoção da jogada.
Depois de alguns jogos, os amigos decidem ir embora. Entram no carro e seguem em silêncio. Não falam nada, apenas ouvem a música rolando. A única mulher deseja ir para casa. Os demais não esboçam nenhum desejo, e nenhuma contrariedade. Até quem um deles convida o restante do pessoal para ir a um bar da cidade, onde toca música ao vivo. A moça não aceita e pede para ser deixada em casa. O trio restante acaba por ir ao bar.
O bar é um lugar pequeno, clima a meia luz, rock n’ roll ao vivo, com as paredes em um tom de cor alaranjado. Clima perfeito para sentar, tomar algo, conversar, e deixar fluir a noite. Isso se o lugar não estivesse completamete lotado. Ninguém conseguia se mexer lá dentro. Apesar do clima blues do lugar, o que mais se via era um monte de burgueses vivendo um momento rock n’ roll da vida. Sebastião olhava a sua volta refletindo o lugar e a desconformidade do estilo arquitetônico e as pessoas que ali estavam. Era tipo assim: nada a ver! Todos bem arrumados, com suas roupas de marca. Não era como os bares blues que Sebastião havia freqüentado.
Pelo fato de estar muito calor, estar extremamente apertado e haver um homossexual mostrando a bunda para Sebastião e seus amigos, resolveram sair do bar e ficar na calçada em frente, ouvindo de lá a música e e conversando de forma tranquila e audível. Sebastião estava irriquieto, supertando as dores nas pernas e nas solas dos pés. Ainda bem que seu All Star verde musgo estava bem batido, dando-lhe mais conforto. Mas All Star não é confortável por natureza. Remexia os pés sem parar, de um lado para o outro. Uma hora apoiava o peso do corpo em uma das pernas, outra hora na outra, e por ora nas duas. Um de seus amigos queria ficar lá, mas Sebastião não estava aguentando.
Até que se despediu e foi embora. Um de seus amigos o acompanhou até o carro e subiu ao apartamento. Sebastião lentamente entrou no carro, ligou o som, selecionou um álbum do The View, arrancou o carro e vagarosamente foi prá casa. No caminho encontrou um casal de amigos e parou para dar uma carona. Levou primeiro a moça, e depois o amigo. Até chegar na casa dele, foram conversando, trocando ideias e falando de seus relacionamentos amorosos. O seu amigo não estava muito satisfeito, o que fez com que Sebastião se sentisse meio pesaroso ao falar de sua namorada. Mas falou, mesmo assim, afinal tem orgulho da pessoa que tem ao seu lado.
Com um sorriso no rosto e peito estufado, Sebastião disse que namorada melhor não poderia ter. Está muito feliz, com uma pessoa maravilhosa, meiga, inteligente, compreensiva, dócil, madura… entre outras incontáveis e indescritíveis qualidades. E ainda confessou que não agüentava mais de saudade. Se despediu do amigo e seguiu para casa. No som, Face for The Radio, do The View. Música perfeita para ele pensar na noite, e no que havia pensado a noite toda. É… ele havia pensado nela a noite toda. E quando alguém tocava o nome dela, reavivava aquela saudade que sentia. Passara a noite pensando se ela não acharia a sua saída reprovável. E ao ouvir aquele som, refletia que algo faltou na noite: ela! Precisava do seu beijo, do seu carinho, de seu sorriso doce.
Chegou em casa, estacionou bem o carro, fechou o portão, entrou e sentou-se no sofá. Pensativo, refletindo sobre a vida. Em sua mente “you have the face for the radio” continuava a ecoar, como se fosse um fundo musical para aquele momento. Pensou em tanta coisa, fez planos. Amanhã sairemos, jantaremos em algum lugar, iremos a alguma festa e depois vamos para casa namorar, saborenado a presença um do outro. Mesmo sem ter feito nada de errado, de ter se portado muito bem, por sinal, Sebastião sentia uma estranha culpa por ter saído sozinho com amigos. Mas sabia que teria a compreensão de sua amada, e tudo ficaria bem. A custo, adormeceu, com suas pernas latejando sobre suas almofadas que pusera aos pés da cama.
No outro dia, as coisas não sairam como desejado. Não saíram como ele havia planejado. Ele esperava pelo momento de vê-la. O momento chegou, e ele passou por um breve interrogatório. Normal. As namoradas sempre fazem um monte de perguntas aos namorados. Mas ele sentia um “chatemento” no rosto dela. Voltou o sentimento de culpa por algo que não fizera, pois não havia realizado nada culpável.
A noite veio, apática, e Sebastião saiu para comer algo com sua amada, ambos com ar desanimado. Mas logo a descontração voltou, e estavam os dois a rir na mesa do restaurante, felizes. Pois afinal, Sebastião sabe que tem uma namorada maravilhosa, e ela sabe que Sebastião a ama demais, e é incapaz de querer decepcioná-la. E tudo voltou a sua normalidade. Ou, pode se dizer que foi desfeita a aparente anormalidade.
Os conflitos existenciais de Sebastião são constantes. Mas ele de forma alguma pode se queixar da vida que leva. Se o bar não é blues do jeito que ele imaginava, e se sentia culpada por não estar com sua amada, vamos ao bar jogar sinuca, ouvindo um bom Muddy Waters no caminho, na feliz companhia de sua tão doce namorada. Sim, não estamos num bar, mas sim no carro, mas o clima é blues, e a companhia é a melhor possível.
É, Sebastião está crescendo, envelhecendo, amadurecendo, e vendo que o mundo é bom. É, é sim, o mundo é bão Sebastião! 




nunca foi tão confortável. Aquela programação da televisão nunca foi tão agradável. Eu finalmente poderia deitar e dormir, nem que fosse no chão. Finalmente eu estava de pernas para cima, relaxando, sem pressão, sem me cuidar. Era só vegetar e curtir o momento “zem”. Só que o sono que eu queria sentir estava passando. Na hora errada. Agora sim eu poderia sentir sono sem problema algum. E ele estava indo embora. Comecei a ficar puto de novo. Só que eu estava tão cansado que nem isso conseguia fazer.