Arquivo da categoria ‘Histórias’

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Sebastião em uma Sexta a noite

16/08/2009

Sexta-feira é um dia dividido em alegria e cansaço. Alegria por mais uma semana que chega ao fim, e o cansaço de toda uma semana corrida. Para Sebastião não foi diferente. E o pior é que ele se sentia mais cansado do que feliz. Não que não fosse feliz. Estava passando por uma ótima fase. Só que o que mais queria era poder aliviar a dor nas pernas que sentia. Tanto que, ao chegar em casa, logo deitou no sofá, esticou as pernas e suspirou aliviado. Sua mãe chegou perto e gentilmente começou a tirar seus sapatos, mas Sebastião recusou, dizendo que ela não precisava fazer aquilo, e que deveria ocorrer ao contrário. Ela nem deu ouvidos, dizendo a ele que ela fazia aquilo com maior prazer, já colocando s pantufas no lugar dos sapatos pretos que Sebastião usava.

Após fazer um lanche, atendeu a ligação de um amigo que o convidava para sair, dar uma volta, conversar e aproveitar a última sexta antes do reinício das aulas. Apesar do forte cansaço, e de ter alguns compromissos no sábado pela manhã, aceitou o convite dos amigos. Afinal, ao iniciar as aulas, Sebastião não se daria o luxo a saídas nas sextas, nem nas quartas, nem dia algum. Portanto,  após um banho relaxante, Sebastião pediu o carro ao pai, ligou o som, curtindo um bom e velho ACDC, e pé na tábua.

Foi até a casa do amigo, que já o esperava, e depois passaram para pegar o resto da  turma. O resto correspondente a mais duas pessoas. E lá se foi o quarteto rumo ao bar jogar uma sinuca. O bar não é bem um bar, é um lugar propício a sinuca, pois só o que tem lá são inúmeras mesas de sinuca, e um monte de gente jogando. Apesar de se comportar, ele pensava se era prudente sair assim, afinal tem namorada, a respeita muito e ama demais. Jamais deseja magoá-la. Mas eu não vou fazer nada de mau. Vou jogar sinuca com os amigos, conversar, e depois vou prá casa. E assim seguiu jogando, pois não estava cometendo nenhum crime, afinal.

Sebastião jogando sinuca é uma viagem. Ele adora jogar, e quem vê pensa que ele joga muito. Mas ele num passa de um vesgo jogando. Não tem calma, e só acerta as bolas que estão quase dentro da caçapa. E olha lá, hein?! Ele, antes de executar uma jogada, promete para si mesmo que irá se concentrar, mirar bem a bola, jogar com calma. Mas na hora H, ele esquece do que mentalizou e acaba se afobando. Só depois de empreender uma péssima jogada é que se dá conta da quebra de seu próprio juramento, deixado de lado pela emoção da jogada.

Depois de alguns jogos, os amigos decidem ir embora. Entram no carro e seguem em silêncio. Não falam nada, apenas ouvem a música rolando. A única mulher deseja ir para casa. Os demais não esboçam nenhum desejo, e nenhuma contrariedade. Até quem um deles convida o restante do pessoal para ir a um bar da cidade, onde toca música ao vivo. A moça não aceita e pede para ser deixada em casa. O trio restante acaba por ir ao bar.

O bar é um lugar pequeno, clima a meia luz, rock n’ roll ao vivo, com as paredes em um tom de cor alaranjado. Clima perfeito para sentar, tomar algo, conversar, e deixar fluir a noite. Isso se o lugar não estivesse completamete lotado. Ninguém conseguia se mexer lá dentro. Apesar do clima blues do lugar, o que mais se via era um monte de burgueses vivendo um momento rock n’ roll da vida. Sebastião olhava a sua volta refletindo o lugar e a desconformidade do estilo arquitetônico e as pessoas que ali estavam. Era tipo assim: nada a ver! Todos bem arrumados, com suas roupas de marca. Não era como os bares blues que Sebastião havia freqüentado.

Pelo fato de estar muito calor, estar extremamente apertado e haver um homossexual mostrando a bunda para Sebastião e seus amigos, resolveram sair do bar e ficar na calçada em frente, ouvindo de lá a música e e conversando de forma tranquila e audível. Sebastião estava irriquieto, supertando as dores nas pernas e nas solas dos pés. Ainda bem que seu All Star verde musgo estava bem batido, dando-lhe mais conforto. Mas All Star não é confortável por natureza. Remexia os pés sem parar, de um lado para o outro. Uma hora apoiava o peso do corpo em uma das pernas, outra hora na outra, e por ora nas duas. Um de seus amigos queria ficar lá, mas Sebastião não estava aguentando.

Até que se despediu e foi embora. Um de seus amigos o acompanhou até o carro e subiu ao apartamento. Sebastião lentamente entrou no carro, ligou o som, selecionou um álbum do The View, arrancou o carro e vagarosamente foi prá casa. No caminho encontrou um casal de amigos e parou para dar uma carona. Levou primeiro a moça, e depois o amigo. Até chegar na casa dele, foram conversando, trocando ideias e falando de seus relacionamentos amorosos. O seu amigo não estava muito satisfeito, o que fez com que Sebastião se sentisse meio pesaroso ao falar de sua namorada. Mas falou, mesmo assim, afinal tem orgulho da pessoa que tem ao seu lado.

Com um sorriso no rosto e peito estufado, Sebastião disse que namorada melhor não poderia ter. Está muito feliz, com uma pessoa maravilhosa, meiga, inteligente, compreensiva, dócil, madura… entre outras incontáveis e indescritíveis qualidades. E ainda confessou que não agüentava mais de saudade. Se despediu do amigo e seguiu para casa. No som, Face for The Radio, do The View. Música perfeita para ele pensar na noite, e no que havia pensado a noite toda. É… ele havia pensado nela a noite toda. E quando alguém tocava o nome dela, reavivava aquela saudade que sentia. Passara a noite pensando se ela não acharia a sua saída reprovável. E ao ouvir aquele som, refletia que algo faltou na noite: ela! Precisava do seu beijo, do seu carinho, de seu sorriso doce.

Chegou em casa, estacionou bem o carro, fechou o portão, entrou e sentou-se no sofá. Pensativo, refletindo sobre a vida. Em sua mente “you have the face for the radio” continuava a ecoar, como se fosse um fundo musical para aquele momento. Pensou em tanta coisa, fez planos. Amanhã sairemos, jantaremos em algum lugar, iremos a alguma festa e depois vamos para casa namorar, saborenado a presença um do outro. Mesmo sem ter feito nada de errado, de ter se portado muito bem, por sinal, Sebastião sentia uma estranha culpa por ter saído sozinho com amigos. Mas sabia que teria a compreensão de sua amada, e tudo ficaria bem. A custo, adormeceu, com suas pernas latejando sobre suas almofadas que pusera aos pés da cama.

No outro dia, as coisas não sairam como desejado. Não saíram como ele havia planejado. Ele esperava pelo momento de vê-la. O momento chegou, e ele passou por um breve interrogatório. Normal. As namoradas sempre fazem um monte de perguntas aos namorados. Mas ele sentia um “chatemento” no rosto dela. Voltou o sentimento de culpa por algo que não fizera, pois não havia realizado nada culpável.

A noite veio, apática, e Sebastião saiu para comer algo com sua amada, ambos com ar desanimado. Mas logo a descontração voltou, e estavam os dois a rir na mesa do restaurante, felizes. Pois afinal, Sebastião sabe que tem uma namorada maravilhosa, e ela sabe que Sebastião a ama demais, e é incapaz de querer decepcioná-la. E tudo voltou a sua normalidade. Ou, pode se dizer que foi desfeita a aparente anormalidade.

Os conflitos existenciais de Sebastião são constantes. Mas ele de forma alguma pode se queixar da vida que leva. Se o bar não é blues do jeito que ele imaginava, e se sentia culpada por não estar com sua amada, vamos ao bar jogar sinuca, ouvindo um bom Muddy Waters no caminho, na feliz companhia de sua tão doce namorada. Sim, não estamos num bar, mas sim no carro, mas o clima é blues, e a companhia é a melhor possível.

É, Sebastião está crescendo, envelhecendo, amadurecendo, e vendo que o mundo é bom. É, é sim, o mundo é bão Sebastião! MuddyWaters

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Pelas ruas da cidade

03/08/2009

Ele caminhava com as mãos no bolso, e a cabeça meio baixa. O passo meio cambaleante e os olhos perdidos. Não sabia o que olhar primeiro. Olhava as vitrines, mas não via nada lá dentro. Ah, via, mas não assimilava. Apenas olhava. Quando deu-se conta, estava a olhar uma vitrine de lençóis e edredons. Uma senhora o olhou estranhamente. Mas deve ter pensado que ele estava a escolher um presente para a mãe, e tornou a conversar com sua amiga em um sotaque alemão tradicional na região. Ele sentiu-se estranho mas continou a caminhar. Olhava as ruas, as calçadas, reparando cada pedra que a formavam, suas regularidades e irregularidades. Pessoas entravam e saiam das lojas. Pessoas se esbarravam na calçada. Alguns muito bem vestidos. Outros nem tanto. Outros totalmente cafonas. O vento soprava suave e ele não sabia se sentia frio ou calor. Mas continuava a caminhar, com uma pasta debaixo do braço. Por um instante esquecera que estava em horário de serviço, entrou em uma loja e pediu à atendente se ela tinha Bamba para vender.

- Bamba? Eu acho que nem fazem mais Bambas para vender. Mas eu tenho esse aqui!

- Não. Esse é de futebol. Eu quero um Bamba. Obrigado.

Na saída da loja, dois homens decididamente mal encarados, segurando várias latinhas de regrigerante cortadas pela metade, com uma espécie de canudinho, caminhavam na mesma direção que a sua. Ele olhou as latinhase logo afirmou para si: “latinhas para fumar crack!”. Pensou que os caras que fumam crack fazem tudo pela droga, inclusive assaltam rapazes bem vestidos com dinheiro no bolso. Era o caso dele. Melhor andar mais rápido, esquecer o Bamba e voltar ao trabalho. Até porque estava com dores nas pernas. Não é normal rapazes da minha idade terem dores nas pernas. E eu como banana. Seguia apertando mais ainda o passo, e sentia suas costas começarem a suar.

Enquanto caminhava, ele pensava nas aulas de Sociologia, ao ver toda aquela gente se movendo, se relacionando, consumindo, comprando, rindo, falando, trabalhando, a pé, em seus carros… Fatos Sociais! Mundo capitalista, racionalismo exagerado gerando burocracia. Ele vivia do mundo burocrático. Trabalhava autenticando atos-fatos das pessoas, pedindo-lhes provas sobre suas vidas, quem era, se eram realmente capazes de praticar tais atos-fatos. E quanto será que custa um Bamba? Vonte, trinta reais? Sentiu-se desolcado. Sentiu-se alheio ao mundo. Só queria chegar em casa, escutar um álbum do The View e relaxar. Mas Sebastião não consegueria. Não até encontrar seu tão sonhado Bamba. conga!!!

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Mais algumas do ônibus

12/02/2009

Indo para a parada de ônibus hoje pela manhã, eu pensava sobre a falta de acontecimentos bizarros ocorridos no ônibus. Quase todo dia acontecia algo estranho e anormal, e, nos últimos dias nada de tão assustador. Na verdade, nada foi algo tão assustador. O velhinho “azudo” não é assustador, por exemplo, mas é pitoresco, nojento, ou posso dizer que é até engraçado, pelo fato de as oito e meia da manhã alguém já estar fedendo daquele jeito.

A última que tinha me acontecido foi a da mulher que me esmagou no banco do ônibus. Era um dia absolutamente normal: eu com sono, o ônibus não tão cheio, temperatura amena, não tão quente, ameaçando chover, todo mundo de cara amarrada no ônibus. Diferente do meu costume, nesse dia sentei lá na frente, quase atrás do motorista, naqueles bancos vermelhos para idosos, deficientes e gestantes. Se alguém me questionasse eu diria que estava “grávido”. Mas ninguém ousou. Até porque pela manhã ninguém tem muita vontade de abrir a boca, a não ser para bocejar e exalar aquele gosto de cabo de guarda-chuva de quando se levanta da cama, mesmo após ter escovado os dentes.

Sentado lá na frente eu seguia com meus pensamentos. Até que entrou uma mulher com uma criança no colo. Ao contrário de todo mundo, a tal mulher entrou pela porta da frente. Para não precisar quase atravessar o ônibus para se sentar, ela viu que tinha um banco vago ao lado do “grávido” com cara de sono, mal humorado e de mochila, e ali resolveu sentar. Tudo bem. Não ia me opor ao fato. Não ia porque não sabia do que a mulher ia fazer comigo.

Sentou-se, com a criança no colo e um guarda-chuva. E quando sentou ocupou um banco e um terço do que eu estava sentado. Tudo bem, fechei as pernas, ajeitei minha mochila e fiquei na minha. Aí a mulher começou a se remexer no banco, se ajeitando. Comecei a suspeitar que a mulher estivesse com alguma coceira na “busanfa”. Mas era para acomodá-la melhor, enquanto eu ia cada vez mais próximo da janela.

Ela era uma mulher que aparentava ter uns quarenta e poucos anos, pele bem morena, cabelos lisos e grossos e era meio gordinha. Mas não era uma gorda parelha, se é que me faço entender. Usava roupas simples e um perfume que me tonteou. Putaqueopario! Que perfume forte e ruim. Era doce, e de tanto que ela passou, dava para sentir o cheiro do álcool. Acredito que seja daqueles de espirrar, onde cê aperta o tubo inteiro para aplicá-lo. Nossa, me sufocou aquele cheiro. E além de me sufocar com o cheiro, ela me sufocava contra a janela. A cada curva ela tomava conta de mais uma porção do meu banco.

Nessas horas a gente perde a empatia. Nessas horas eu pensava: “mas que merda, esse tribufu tá me esmagando. Se ela quisesse ocupar o meu banco, deveria ter pedido, e não me empurrado”. Eu tinha vontade de pedir para ela se ela tinha chuveiro em casa. Eu acredito que não, porque o banho que ela tomou foi daquele perfume vagabundo e catinguento. Eu tinha medo de ficar com o cheiro da mulher, de tanto que ela me esmagava contra a janela. Eu tinha vontade de empurrar ela também. Mas ela tava com a criança no colo. Aí comecei a mentalizar a tal da mulher descendo, e levando o cheiro catinguento dela embora. Eu estava até com medo de ficar com aquele cheiro também.

Depois que ela desceu me aliviou o nariz. Já estava me atacando a renite. Desci na minha parada e me cheirei bem para assegurar de que eu estava com o MEU cheiro. E graças a Deus eu estava.

***

Depois dessa da mulher, só a de hoje. Nada de muito estranho também. Só que eu acho que a guria deve ter se sentido pior depois que eu olhei para ela. Eu também não fiquei muito confortável.

Entrei no ônibus e sentei no banco em frente à cobradora. Eu nunca conversei com ela, apesar de pegar o ônibus todos os dias. É que ela me deixa triste e irritado. Trata as pessoas com estupidez, principalmente os idosos. Está certo que tem uns velhinhos que são chatos pra caralho, mas mesmo assim ela poderia ter um pouco mais de paciência e delicadeza.

Quando estávamos na rodoviária, entrou uma família bem “grandinha”, um monte de criança e uns adultos gritões. Ela, a cobradora, logo disse: “ai meu Deus!”. E eu logo pensei: “pronto, a estúpida já vai descontar na família Buscapé.” Quando olhei pra ela vi que o “ai meu Deus” não era referente ao pessoal, e sim ao estado em que ela se encontrava. O motorista lá da frente olhou para ela e ela disse, sem emitir som, apenas com movimento dos lábios: “eu to mal, vô vomitáá!” A mente de Jhony Walker imaginou uma série de motivos: vai ver ela havia tomado todas no domingo, naqueles bailões que vão da uma da tarde até a hora da última coroa estar dançando; ou talvez ela pudesse ter comido, no café da manhã, uma mortadela estragada, comprada na quarta-feira da semana passada; poderia ser a salmonela da maionese; ou ela poderia estar grávida. Será?! Quase perguntei para ela. Imagina se ela estive, eu poderia ser o primeiro a dar os parabéns para o Estupidozinho Jr.

Olhei para ela, e na mesma hora ela levou a mão na boca, inflou as bochechas e…. e eu arregalei o olho, apavorado, e com medo de que ela vomitasse em cima de mim. Porra! Eu tinha tomado o meu banho, passado meu perfumezinho. Era só o que me faltava. Mas, ela deve ter ficado constrangida com minha cara de espanto que deve ter engolido de volta a mortadela, ou a cerveja, ou a maionese, ou o filho…

Mas sabe que eu fiquei com dó dela. Deve ser foda estar mal, com ânsia de vômito, e ainda num ônibus balançando o dia inteiro. E olha que o motorista não estava nem aí para a guria. Pisou naquele acelerador com vontade, como faz todos os dias. Buraco na estrada, curvas, ele nem estava. E a guria naquele estado, mão na barriga, meio vesga, com cara de cão que caiu da mudança. Mas não é um cão simples, é um cão estúpido e com mal estar.

Eu não poderia ficar ali parado vendo a guria prestes a vomitar. Tinha de tomar uma providência, e logo. Aí que fiz o que deveria ter feito logo de cara: peguei minha mochila, a passagem, entreguei para ela e vazei para frente. Não poderia correr o risco de chegar todo vomitado no trabalho. Ainda mais em uma segunda-feira “daquelas”. E “daquelas” mesmo. Minha renite chegou ao apogeu. Um ataque sinistro. Mas essa é uma outra história, que você verá nesse mesmo horário, e nesse mesmo canal.

Star City, 09 de fevereiro de 2009, Jhony’s Badroom, às 19h30min.

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Comprimido do sono

22/01/2009

Bem que eu havia desconfiado que o meu remédio da rinite me daria um “baita” sono, mas não imaginei a proporção dele. Hoje eu senti o efeito daquele pequeno comprimidinho. Efeito de grandes proporções, inclusive me impulsionando a escrever este artigo. O nome do remédio é “Decongex Plus”. São dois pequenos comprimidos por dia, um pela manhã e um pela noite, para aliviar sintomas de gripe, rinite, sinusite. É um descongestionante antialérgico poderoso. Já havia usado ele no primeiro tratamento da rinite, mas o efeito eu não me recordava. Não assim.

A rinite é uma inflamação da mucosa do nariz. Ela ocorre como reação do organismo a um agente que invade essa estrutura. A mucosa, que reveste a cavidade chamada corneto, está sujeita à agressão das partículas, principalmente a da região inferior. Como conseqüência, aumenta de volume, reduz a passagem de ar e dá a sensação de nariz entupido. Resumindo: é uma merda!, ficar com o nariz ora escorrendo, ora entupido, tendo dificuldade para respirar e tendo constantes ataques de espirros, ou pela presença de poeira, ou pela mudança de temperaturas dos ambientes.

Com todos os sintomas descritos, não há como não ficar de mau humor. A vontade de que passe logo a reação alérgica é tanta que se enfia todo tipo descongestionante no nariz. E isso acaba piorando a situação. Quem sofre desse mal rende menos no trabalho, nos estudos, além de ter afetada a convivência social, tendo de estar sempre prevenido com lenços, remédios, e cuidando as mudanças de temperatura. Não é a todo lugar que se pode ir, não é toda atividade e em toda hora que se possa realizar, porque pode haver um desencadeamento de espirros e coriza incontroláveis e irritantes, até mesmo para quem está por perto.

Então vamos lá senhor Jhony, de volta ao tratamento da rinite.

Bela manhã de quarta-feira, depois de uma noite mais ou menos bem dormida, com aquele cansaço rotineiro, e com o relógio sempre contra mim. Café da manhã tomado, banho, almoço na mochila, e remedinho goela a baixo. Eu ainda comentei com a minha mãe: “Não é esse o remédio que dá sono não?!”. E ela respondeu: “eu não lembro. Mas acho que não. Lê a bula.” O que dizia na bula era sobre a sonolência excessiva causada se o comprimido fosse tomado com outro tipo de remédio para insônia, depressão, ou algo do tipo. Aí pensei que não era o meu caso, e tomei o remédio bem “tranqüilão”.

Tomei o ônibus e fui tranqüilo ao trabalho, com o nariz respirando normalmente, sem nenhum espirro e sem nenhuma “fungada”. Uma beleza. É tão bom que custa para acreditar. Mas eu estava me sentindo bem. Só um pouco sonolento. Bem, o sono eu sinto todo dia quando vou trabalhar, não seria diferente na quarta-feira do dia 21 de janeiro de 2009. Enganei-me um pouco – um pouco bastante.

Depois de largar minhas coisas no armário, colocar o sapato, e me dirigir até os guichês onde eu atendo os clientes do Tabelionato, eu vi que algo não estava muito certo não. Eu estava raciocinando um pouco menos rápido do que o normal. Nem o meu pensamento estava acelerado como de costume. O cansaço estava grande, e eu sem vontade de atender. Começou a “soneira”.

O primeiro atendimento do dia foi normal, tranqüilo, sem nada de mais. O segundo também. Até brinquei que havia faturado vinte reais e quarenta centavos ao tabelionato em apenas dois atendimentos. Só que o sono foi aumentando, bem ao contrário do que acontecia em todos os dias. Quando eu me reparava, estava olhando para o vazio, quase sonhando. Até algumas coisas sem nexo escapavam da minha boca. Espero que ninguém tenha notado.

Aí entrou uma senhora com um documento onde deveriam assinar duas testemunhas. A senhora estava sozinha. Pensei que não havia nenhuma das assinantes presente, porque quando isso ocorre, elas logo se apresentam no guichê para serem reconhecidas pelo atendente. Fui até o arquivo e procurei as fichas das duas mulheres. Voltei com a ficha na mão, de uma delas. A outra eu encontrei no sistema de computador e não precisei achá-la no arquivo dos cadastros antigos. A essas alturas eu não conseguia mais prestar atenção em muita coisa.

A que tinha o cadastro no computador eu pedi se estava presente e a senhora disse que não. Para reconhecer a assinatura da outra, dirigi a mesma pergunta à velhinha, e ela disse que sim, e só então a assinante apareceu. Confirmei, para ver se era ela mesma e fiz o reconhecimento. O procedimento que eu deveria seguir seria a abertura da ficha cadastral da testemunha que ali estava, e que só tinha o cadastro antigo. Só que o soneca aqui, mais para lá do que para cá, nem se ligou nesse pequeno – pequeno grande – detalhe e reconheci sem as atualizações devidas.

Pedi o nome para o recibo e despachei as velhinhas para esperarem no caixa. Depois de ter colado as etiquetas do reconhecimento da assinatura que eu vi que havia feito uma cagada. Fiz os dois reconhecimentos por autenticidade, sendo que deveria ter sido um por autenticidade e o outro por semelhança. Fiquei puto comigo mesmo. Imprimi o recibo e tive de cancelá-lo logo em seguida. Cancelar um recibo não é nada legal. Além de ficar registrado com o meu nome, é sinal de erro. Descolei as etiquetas lentamente para não danificar o documento e fui refazer o reconhecimento de firma. A questão do cadastro larguei de mão. O importante era fazer certo e logo o reconhecimento, pois as pobres coitadas ainda estavam lá esperando.

Respirei fundo, esfreguei os olhos e comecei a refazer. Só que eu nem lembrava mais qual deveria ser por autenticidade e qual por semelhança. Raciocinei um tempo e por dedução fiz como achei que fosse. Mas fiz certo. Resolvido a cagada do dia. Peguei as etiquetas que sobraram e coloquei dentro da gaveta da Cassiana, minha colega de trabalho do guichê ao lado. Ela nem percebeu. Eliminei as provas contra mim – que pau no cu.

Chamei o próximo cliente. Era uma declaração de residência. Olhei por cima aquele texto mal escrito e pedi ao cliente se era ele quem estava declarando residência. Ele afirmou que sim e eu com sono e de saco cheio – não sei o motivo – fui logo pedindo o CPF e a Carteira de Identidade do cidadão. Ele de pronto me entregou e eu fui fazendo o cadastro dele. Preenchi os dados, tirei a foto, coletei a digital, digitalizei os documentos, tudo bem feito, me concentrando para não cometer nenhum erro. Feito o cadastro, fui colocar a seta na assinatura dele e vi que não fechava, era outro nome. Só então fui ler bem a declaração de residência e vi que não era ele quem declarava, e sim o titular do endereço que o fazia pelo cliente que ali estava. Quase bati no cara, que, na sua ignorância, disse que era ele quem declarava. Mas isso ficou só no meu íntimo. Ainda mais que o rapaz era do Morro XXV. Fiz de conta que estava tudo normal e reconheci a assinatura do senhor que havia declarado e despachei o rapaz.

Aí foi demais. Com a velhinha eu deixei de fazer o cadastro que precisava, e com o gurizão eu fiz um que não precisava. Sem falar nas duas etiquetas que geraram uma nota cancelada. O dia não estava para mim. Quando eu me levantava da cadeira e parava, via tudo estranho. Eu só pensava na minha cama deliciosa, no meu edredom, no conforto do meu quarto. E isso me fez ir até a cozinha e tomar três copos cheios de café puro, para ver se acordava, mas nem isso adiantava. Ô comprimidinho do “diaabo”!

No horário de almoço quase dormi sentado. Li a doutrina de Direito Civil e não absorvi nada. Só lembro que enquanto eu lia, imaginava no que estaria fazendo em casa naquela hora. Pensava que seria melhor ainda se estivesse na companhia da minha namorada, trocando uns carinhos, alguns beijos. Só que eu estava muito estressado, sem saco e chato para mais de metro. E a minha garota não merece isso.

A tarde veio e com ela mais alguns copos de café. Só dei uma acordada quando ocorreu um apagão e ficamos um bom tempo sem energia elétrica no Tabelionato. Não só no Tabelionato, mas em toda cidade de Lajeado. O atendimento teve de ser manual, o número de clientes aumentou e o serviço estava mais lento. A correria pegou e isso fez com que, de forma forçada, eu ficasse um pouco mais esperto. E o efeito do remédio estava passando também.

Quando cheguei em casa, por volta das 6:45 da tarde, fui “reto” ao sofá e me deitei. Que delícia. Aquele sofáSoninho gostoso nunca foi tão confortável. Aquela programação da televisão nunca foi tão agradável. Eu finalmente poderia deitar e dormir, nem que fosse no chão. Finalmente eu estava de pernas para cima, relaxando, sem pressão, sem me cuidar. Era só vegetar e curtir o momento “zem”. Só que o sono que eu queria sentir estava passando. Na hora errada. Agora sim eu poderia sentir sono sem problema algum. E ele estava indo embora. Comecei a ficar puto de novo. Só que eu estava tão cansado que nem isso conseguia fazer.

Depois do lanche e depois de ter falado com a minha garota linda pelo telefone, voltei a ingerir o tal comprimidinho porreta que me deixou “legalzão”. Já fazem meia hora que o tomei, e isso significa que já estou quase deitado na cadeira da escrivaninha do meu quarto na frente desse bom amigo computador. Os olhos diminuem e a cama atrás de mim me convida a celebrar a arte de dormir.

Um sentimento de satisfação toma conta de mim, porque agora sim, poderei dormir sossegado. Chegou o momento pelo qual eu esperei durante o dia inteiro. Então, boa noite pessoal. Ah, claro. As etiquetas da gaveta da Cassi eu recolhi no fim do dia, sem que ninguém soubesse que lá estavam, sem prejuízo à minha amiga.

Jhony, 21 de janeiro de 2009.

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O Senhor que tomou um Red Bull

17/01/2009

Um longo dia de trabalho viria pela frente e eu já estava atrasado por conta do forte sono que fez com que eu ficasse além do tempo devido na cama, enrolando e criando coragem para levantar. Minhas noites não eram das melhores, não conseguia dormir direito, tinha dificuldades para pegar no sono, rolava até altas horas na cama. Resultado: acordava cansado e indisposto. Mas não poderia me dar o luxo de deixar de ir trabalhar.

Levantei mal humorado, em silêncio – como sempre -, tomei o café da manhã, o banho, peguei minhas coisas, coloquei na mochila tudo o que precisava, e o livro que estava lendo enquanto ia ao trabalho. O livro era Iracema, um clássico literário de José de Alencar. Como eu não havia lido na época do ensino médio, e agora, no ensino superior havia adquirido um imenso gosto pela leitura, resolvi ler o clássico e saciar minha curiosidade.

Estava eu saindo de casa quando lembrei de algo que, pela pressa, havia esquecido. O desodorante. O calor era forte. O dia começava como sol bastante intenso, e como eu estava atrasado, teria de caminhar rápido, o que resulta em suor excessivo, anda mais que suo além do normal. Após aplicar o desodorante nos “sovacos”, saí apressado. Da minha casa até a parada de ônibus são cerca de oito minutos mais ou menos. Aquele dia eu teria de fazê-lo em cinco.

Cheguei na parada de ônibus um pouco suado, um pouco ofegante, e logo fui abrindo o livro. Não demorou mais de um minuto para que o ônibus chegasse. Entrei e sentei na janela em um banco que ficava antes da catraca. No ônibus as pessoas de todos os dias, sentadas mais ou menos nos mesmos lugares de sempre. O ônibus se deslocou até a rodoviária, que era a parada seguinte da minha. Entrou mais uma porção de gente. Entre eles um velhinho que eu não havia visto ainda.

O velhinho era bem vestido. No estilo dele, mas era. Calça social em um tom bem discreto, camisa social devidamente abotoada e por dentro das calças, em um tom de verde musgo, mas um pouco mais claro. E sobre sua cabeça, um chapéu de feltro no mesmo tom das calças. O chapéu parecia novo, recém comprado, e escondia boa parte dos poucos fios de cabelo branco que tinha. Apesar da idade avantajada, ele não parecia ter aquele cheiro de naftalina costumeiro da terceira idade.

O senhor apresentou sua carteirinha de idoso para a cobradora da empresa (que era uma estupidez em pessoa, diga-se de passagem), pagou e sentou no banco a minha frente. Eu segui minha leitura de Iracema sem dar muita bola para muita coisa. Quando de repente o forte calor do dia começou a surtir efeito. E não era o calor que eu sentia, mas o efeito que surgia no senhor idoso: um forte odor de “asa”.

Era um cheiro azedo, forte, desconcertante. Cheguei a me cheirar várias vezes para me certificar de que não era em mim, de tão forte que era. Olhei para a cobradora e ela franziu a testa. No livro eu lia uma passagem onde falava, na forma poética do autor, de doces cheiros, e aquele cheiro de “asa” tomando conta do ônibus. Eu até pensava :”como fede essa a floresta da Iracema”.

Pobre do senhor, não tem culpa de suar, e feder a “asa”. O calor era forte, o tecido da camisa do velhinho não me parecia das mais leves, e o ar condicionado do ônibus não surtia efeito. Dei uma olhada na minha mochila para ver se não encontrava um desodorante. Mas não encontrei. Se tivesse, eu ofereceria para o senhor, amenizando o desconforto de quem estava na volta dele. O pior de tudo é que ele nem deveria saber do seu odor.

Fiquei com pena do senhor, mas em seguida pensei: “puta merda! se eu quase me atrasei para voltar para casa e colocar o desodorante, porque ele não poderia fazer o mesmo?”. Até porque ele era bem ajeitado, falta dinheiro não seria, ainda mais com aquele chapéu novinho que ele usava sobre a careca branca.

Foi um alívio quando cheguei na parada de ônibus próximo ao Tabelionato, desci, e dei uma bela de uma cheirada nas minhas axilas, sentindo o cheiro gostoso do meu desodorante. Senti-me o cara mais cheiroso do pedaço, e até minha auto-estima subiu. Fui trabalhar até mais feliz e disposto.

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Maldito Lucky Strike…

23/11/2008

Era um sábado normal, como todos os outros. Mas era normal para todo mundo, menos para mim. Eu ainda vivia uma fase de transição. Uma transição benéfica. Só não havia me habituado por completo ainda, me sentia fora do rumo a qual eu tinha me habituado. O dia estava frio, com um tímido sol querendo ora surgir, ora se esconder. Mas eu estava animado, com frio, sem frio, chuva, sol, para ir até o clube (Soges) e ver meus amigos jogar futebol pelo Barril Júnior. Cheguei lá cedo da tarde, meio perdido, sem nenhum conhecido para conversar, até que encontrei o Adrian.

Ficamos conversando, assistindo ao jogo. Aliás, metade do jogo, porque quando cheguei já estava no fim do primeiro tempo. O placar marcava 4 a 1 para o Barril, que, de forma desastrosa, deixou que o fraco time oposto encostasse no placar, terminando o jogo em 4 a 3. Pelo menos haviam ganho. Pensei que eu tivesse dado azar a eles, porque quando eu cheguei, tomaram dois gols. Mas pensei: “ainda bem que não vim mais cedo, porque se não teriam tomado uns cinco”.

Eu e o Adrian conversamos por um longo tempo, até ele sair com umas amigas, e eu fiquei porlá, meio zonzo, perdido. Mas eu estava em uma fase de “foda-se”, só queria levar a vida mais sossegado e sem estresse, sem ficar me incomodado com o passado, e muito menos vir a me preocupar no futuro. Só queria aproveitar um pouco do tempo que perdi na companhia dos amigos. E era isso que eu ia fazer naquele sábado que começava a ficar cada vez mais gelado.

Lembro que era a primeira vez que eu usava minha jaqueta verde, minha favorita. Paguei muito caro por ela, e tinha até pena de usá-la. Teria que ser usada em uma ocasião muito especial. Só que antes de sair de casa fui tomado por aquele tipo de pensamento salvador do mundo, do tipo: “todo dia, toda hora é uma ocasião especial”. Vesti a jaqueta, pus um perfume e “fui-me”. Meu pai me levou porque eu não me animava muito em sair sozinho de carro. Pelo menos com o do meu pai não. Foi uma fase de desentendimento entre mim e o Monza 89 do “velho”.

Pois bem. O Barril saiu de campo com a vitória, e isso era um bom motivo pra comemorar. E tratando-se de Barril, se comemora com cerveja e mais cerveja. Entre toda a gurizada, eu era o único (creio) que não jogava futebol. Já havia jogado com aquele pessoal, mas por causa de lesões nos dois joelhos – como se essa fosse a única causa, excluindo o fato de eu jogar mal pra caralho -, abandonei o bando e me dediquei a prática de ouvir música. Pelo menos nesse esporte que pratico o risco de me lesionar é bem menor. Por falar em música, estava eu, com meu mp4 nos ouvidos, durante grande parte do tempo. E isso fazia com que eu batesse no chão com meu All Star branco (meu favorito) o tempo todo, no ritmo da música. E a cerveja começou a rolar solta entre a galera. As fichas pras cervejas até hoje eu num sei certo de onde vieram. Talvez tenham sido pagas pelo Wilson, ou então pelo irmão do Edd. Não sei mesmo. Só sei que me ofereceram e eu não recusei. Bebia timidamente aquela gelada cerveja, porque fazia tempo que eu não bebia pra valer. E da forma tímida, fui passando pras fases seguintes, que nem sei se tem nome.

O meu grande amigo ali era o Roberth. Amigão mesmo, e fui lá na Soges para conversar com ele, e aproveitar o sábado com ele. E com ele, tomei muita cerveja aquele dia. As cervejas deveriam ser tomadas em conjunto, de forma amigável. Até porque eu nem sabia quem estava pagando. As fichas vinham eu não sei de onde, mas eu acompanhava o Roberth até a copa para pegar as cervejas. Tomávamos metade lá na copa, e voltávamos com a outra metade para dividir com o resto do pessoal. Coisa de pau no cu! Mais pau no cu era quando eu pagava alguma cerveja e não levava lá no pessoal para dividir, e pelo contrário, tomava com o Roberth, às escondidas. Nós estávamos tirando vantagem dos próprios amigos. Nem sei por que se faz isso. Mas naquele momento, já meio “alegrinho”, eu só queria era ficar podre de bêbado. Read the rest of this entry ?

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Trabalho ao cubo

03/08/2008

O ano era 2007. O mês… setembro ou outubro, não me recordo. Mas aqueles dias trabalhando que nem um bicho, eu não esqueço jamais. Dias suados, doloridos, longos, intermináveis. Dias de superação, dentro do atelier de calçados em que trabalhei.

Eu estava trabalhando em um modelo de sandália feminina, bem delicada e bonita. Era início de dias quentes, e para o verão entraram modelos novos naquela esteira onde eu estava. Na verdade era uma fabricação fora da esteira, com um grupo pequeno de pessoas. Eu trabalhava por três, fazendo toda a preparação do calçado: perfurando (com vazador e martelo), passando cola, botando a fivela, fazendo o perfuro na tira de afivelar. Apesar do excesso de serviço, para mim estava bom.

Até que iniciou em outra esteira um modelo novo na fábrica, para uma grande marca brasileira. Início de modelo, o pessoal ainda em fase de aprendizagem e faltavam algumas pessoas para preencher o número de colaboradores. Como eu estava sem serviço no momento, o Carlos (gerente do atelier), que me viu ajudando uma costureira, fora do meu posto, me chamou para iniciar um serviço: colar as “bolinhas” no tope do sapato, e depois cravar um rebite, um cravo nas pontas do tope. De início parecia tudo muito tranqüilo. Mas mal sabia eu a encrenca em que me meteria. Read the rest of this entry ?

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Sexta-Feira Inesperada

02/08/2008

Era uma sexta-feira normal. Fui cedo ao trabalho, após um rápido café da manhã, com a má vontade costumeira de quem sabia que um longo e cansativo dia viria pela frente. Mesmo assim eu tentava me animar, de alguma forma, pois afinal era o último dia de trabalho da semana. O problema era o cansaço exagerado, após trabalhar uma longa semana.

Meio à contra-gosto, fui à luta. Era um dia absolutamente normal. Bastante trabalho, conversa com os colegas, reclamações. Tudo dentro da normalidade e dos costumes do atelier de calçados. E assim a demorada manhã – que pareceu ter dez horas – chegou ao fim, e fui para casa para almoçar, tentar descansar e voltar correndo ao batente.

Almocei, arrumei algumas coisas, liguei o computador e pus um Nando Reis pra curtir e relaxar. Relaxar para não ser tomado de vez pelo estresse. Ah, sim! Claro! Eu pensava nela também, sempre. E isso me acalmava, me animava e me dava força. Pensava tanto que ultrapassava o limite de tempo que tinha disponível em casa. E nessa sexta-feira foi assim. Eu estava de saída, muito rápido, quando o telefone tocou. Apressado, pedi para que minha mãe atendesse porque eu estava atrasado. Ela atendeu, e quando eu estava saindo porta fora, ela disse que era para mim. Mal eu sabia a surpresa que teria. Read the rest of this entry ?

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Jerônimo

12/07/2008

Jerônimo. Um rapaz de dezoito anos, esforçado, bem humorado, brincalhão. Trabalha em uma fábrica de calçados, ganhando seu mísero salário. Os estudos deixou pra trás, onde os sonhos se perderam na realidade e no cansaço de uma vida dura e injusta. Ambições, tem mil… Mas um certo comodismo lhe tomou o espírito de homem mundano, que segundo Maquiavel, é ávido de lucro.

Apesar das dificuldades de morar em um lugar humilde, de ter um trabalho duro, um salário injusto, Jerônimo chega a ser, muitas vezes, até chato, de tanto que brinca com os colegas e as pessoas que o rodeiam. Alguns perdem a calma com ele. Mas ele se mantém o mesmo, ora revida a altura, ora revida com outra brincadeira. Resumindo: Jerônimo é um rapaz alegre, que ri até da própria desgraça.

Só que, em um dia, Jerônimo não tinha mais aquela malevolência moleca no olhar. Estava quieto, sereno, olhar fundo, semblante digno da mais nobre empatia. Não era o Jerônimo que todos estavam acostumados a ver. E havia um motivo para sua tristeza e serenidade.Um dia antes, seu avô, pessoa com quem ele dividia o lar, falecera, de forma muito rápida, repentina. Ele já estava doente, passando por maus momentos em uma cama de hospital. Uma isquemia cerebral o abatera, e ele estava apenas com seus órgãos vitais a funcionar, esperando para que parassem e o fim da vida terrena fosse decretado.

No dia da morte de seu avô, Jerônimo pôde se ausentar do trabalho. Porém, no outro dia, deveria estar e esteve lá, para cumprir sua função e realizar seu trabalho desgastante. Quieto ele trabalhava, com o olhar perdido, meio de choro, mas sempre sério. Não pude deixar de expressar minha palavra amiga ao cara que sempre aperta bem firme a minha mão ao me cumprimentar. Ele comovido me agradeceu, e eu saí com o sentimento de ter feito tão pouco perto da dor da perda de Jerônimo.

Dor que passava ali, diante de uma esteira cheia de sapatos. Não podia nem estar junto a sua família naquele dia difícil, no dia seguinte à morte de uma pessoa tão presente na sua vida, que até mesmo morava com ele. Devia trabalhar, segundo manda a lei, segundo a regra trabalhista. Sua tia (filha do falecido) teve dois dias para ficar em casa e se recuperar da dor. Também é muito pouco diante de uma perda tão relevante.

E aí se pensa: como as coisas são injustas. O sentimento foi completamente esquecido por parte dos superiores do atelier de calçados (apelidado, carinhosamente, de presídio). Poderiam eles dar mais um tempo para que Jerônimo pudesse descansar, refletir e buscar as forças de que precisava. Nem quero falar da lei. Não quero entrar em uma nova discussão. Porém, fico triste por não haver bom senso por parte da fábrica de calçados.

Então Jerônimo se recupera da dor da perda de seu avô, pessoa com quem dividia a intimidade, pessoa tão querida por ele, entre os sapatos da fábrica de calçados onde trabalha. Recupera-se com um salário ridículo que sempre atrasa. Recupera-se tendo de aturar a arrogância das pessoas com quem divide o espaço. Recupera-se com o desgaste físico.

Jerônimo. Um rapaz de dezoito anos, que vive a dor da perda de uma pessoa tão querida, e que tenta recuperar o brilho do olhar moleque e brincalhão, entre uma e outra brincadeira meio disfarçada da tristeza estampada em seu rosto.