
Solidão
26/07/2009Como é bonito ver a “fumacinha” saindo do café. O café quente, negro, bem adoçado, na caneca prata. As “fumacinhas” dançam até desaparecer no ar. Na cozinha não há ninguém além de mim. Apenas eu com meu eu, dividindo a bela visão da “fumacinha” do café. As plantas parecem não dar bola para minha presença. Presença silenciosa, pensativa. Os objetos à minha volta estão dispostos como sempre estiveram. Mas parecem tão peculiares nesta manhã. Há um quê de mistério. Os sapatos abaixo de meus olhos apresentam um desgaste nas pontas. Pretos sapatos, macios e confortáveis. Porém, a vontade de não estar usando-os é inevitável. O frio do dia cinza e úmido entra lentamente pela porta, e parece entrar devagarzinho pelas mangas do casaco, das blusas de lã, da camisa, se dissolvendo em instantes. O café lhe tira o efeito, me mantendo aquecido. O estômago dá sinais de fome. Mas não trouxe nenhuma guloseima nem fruta para o lanche. O café, sem sucesso, tenta preencher o vazio da fome. E os sapatos se cruzam para relaxar os músculos da panturrilha. Os olhos estão pesados. Talvez efeito do antialérgico, ou da noite mal dormida. Os ombros parecem carregar o peso do mundo, mas meus pensamentos lembram que não é de todo o mundo, mas do meu mundo, o mundo em que vivo e o mundo que quero construir para mim. O resultado é um desejo incessante por uma prolongada massagem. O café vai acabando. Já posso ver o açúcar acumulado no fundo da caneca. A mão automaticamente se dirige até a cafeteira que enche mais uma vez a caneca. O relógio se move mais depressa que o desejado, e a hora de voltar ao trabalho se aproxima. O sol timidamente começa a clarear o dia cinza, tentando diminuir a excessiva umidade causada pela longa chuva da noite. Mais um gole de café, seguido de outro mais longo. Esboço versos de uma canção: “posso estar só, mas só de todo mundo. Por eu ser só um…”, seguida de um assovio baixinho. “Isso lá é bom, doce solidão”. Doce solidão da manhã gelada. Nunca a solidão foi tão bem preenchida. Eu, comigo mesmo. Que companhia agradável. Aqui sou notado, sou o centro das atenções, sou compreendido, estou bem acompanhado, de quem gosto e gosta de mim. Melhor do que estar entre amigos e nem se quer ser notado. Melhor por poder expor exatamente aquilo que me vem na mente. Como o fato de olhar para o adoçante sobre a mesa e refleti-lo. O adoçante. Gotinhas de uma água doce. O relógio já se moveu o bastante e eu preciso voltar ao compromisso. Levanto e limpo rapidamente a caneca. Já não há mais fumacinha do café, já não há permissão para lamentos e nem mesmo reflexão. Despeço-me e volto à pressão diária, sucumbindo a vontades alheias, sabendo que pouco se importarão com as minhas.