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Mais algumas do ônibus

12/02/2009

Indo para a parada de ônibus hoje pela manhã, eu pensava sobre a falta de acontecimentos bizarros ocorridos no ônibus. Quase todo dia acontecia algo estranho e anormal, e, nos últimos dias nada de tão assustador. Na verdade, nada foi algo tão assustador. O velhinho “azudo” não é assustador, por exemplo, mas é pitoresco, nojento, ou posso dizer que é até engraçado, pelo fato de as oito e meia da manhã alguém já estar fedendo daquele jeito.

A última que tinha me acontecido foi a da mulher que me esmagou no banco do ônibus. Era um dia absolutamente normal: eu com sono, o ônibus não tão cheio, temperatura amena, não tão quente, ameaçando chover, todo mundo de cara amarrada no ônibus. Diferente do meu costume, nesse dia sentei lá na frente, quase atrás do motorista, naqueles bancos vermelhos para idosos, deficientes e gestantes. Se alguém me questionasse eu diria que estava “grávido”. Mas ninguém ousou. Até porque pela manhã ninguém tem muita vontade de abrir a boca, a não ser para bocejar e exalar aquele gosto de cabo de guarda-chuva de quando se levanta da cama, mesmo após ter escovado os dentes.

Sentado lá na frente eu seguia com meus pensamentos. Até que entrou uma mulher com uma criança no colo. Ao contrário de todo mundo, a tal mulher entrou pela porta da frente. Para não precisar quase atravessar o ônibus para se sentar, ela viu que tinha um banco vago ao lado do “grávido” com cara de sono, mal humorado e de mochila, e ali resolveu sentar. Tudo bem. Não ia me opor ao fato. Não ia porque não sabia do que a mulher ia fazer comigo.

Sentou-se, com a criança no colo e um guarda-chuva. E quando sentou ocupou um banco e um terço do que eu estava sentado. Tudo bem, fechei as pernas, ajeitei minha mochila e fiquei na minha. Aí a mulher começou a se remexer no banco, se ajeitando. Comecei a suspeitar que a mulher estivesse com alguma coceira na “busanfa”. Mas era para acomodá-la melhor, enquanto eu ia cada vez mais próximo da janela.

Ela era uma mulher que aparentava ter uns quarenta e poucos anos, pele bem morena, cabelos lisos e grossos e era meio gordinha. Mas não era uma gorda parelha, se é que me faço entender. Usava roupas simples e um perfume que me tonteou. Putaqueopario! Que perfume forte e ruim. Era doce, e de tanto que ela passou, dava para sentir o cheiro do álcool. Acredito que seja daqueles de espirrar, onde cê aperta o tubo inteiro para aplicá-lo. Nossa, me sufocou aquele cheiro. E além de me sufocar com o cheiro, ela me sufocava contra a janela. A cada curva ela tomava conta de mais uma porção do meu banco.

Nessas horas a gente perde a empatia. Nessas horas eu pensava: “mas que merda, esse tribufu tá me esmagando. Se ela quisesse ocupar o meu banco, deveria ter pedido, e não me empurrado”. Eu tinha vontade de pedir para ela se ela tinha chuveiro em casa. Eu acredito que não, porque o banho que ela tomou foi daquele perfume vagabundo e catinguento. Eu tinha medo de ficar com o cheiro da mulher, de tanto que ela me esmagava contra a janela. Eu tinha vontade de empurrar ela também. Mas ela tava com a criança no colo. Aí comecei a mentalizar a tal da mulher descendo, e levando o cheiro catinguento dela embora. Eu estava até com medo de ficar com aquele cheiro também.

Depois que ela desceu me aliviou o nariz. Já estava me atacando a renite. Desci na minha parada e me cheirei bem para assegurar de que eu estava com o MEU cheiro. E graças a Deus eu estava.

***

Depois dessa da mulher, só a de hoje. Nada de muito estranho também. Só que eu acho que a guria deve ter se sentido pior depois que eu olhei para ela. Eu também não fiquei muito confortável.

Entrei no ônibus e sentei no banco em frente à cobradora. Eu nunca conversei com ela, apesar de pegar o ônibus todos os dias. É que ela me deixa triste e irritado. Trata as pessoas com estupidez, principalmente os idosos. Está certo que tem uns velhinhos que são chatos pra caralho, mas mesmo assim ela poderia ter um pouco mais de paciência e delicadeza.

Quando estávamos na rodoviária, entrou uma família bem “grandinha”, um monte de criança e uns adultos gritões. Ela, a cobradora, logo disse: “ai meu Deus!”. E eu logo pensei: “pronto, a estúpida já vai descontar na família Buscapé.” Quando olhei pra ela vi que o “ai meu Deus” não era referente ao pessoal, e sim ao estado em que ela se encontrava. O motorista lá da frente olhou para ela e ela disse, sem emitir som, apenas com movimento dos lábios: “eu to mal, vô vomitáá!” A mente de Jhony Walker imaginou uma série de motivos: vai ver ela havia tomado todas no domingo, naqueles bailões que vão da uma da tarde até a hora da última coroa estar dançando; ou talvez ela pudesse ter comido, no café da manhã, uma mortadela estragada, comprada na quarta-feira da semana passada; poderia ser a salmonela da maionese; ou ela poderia estar grávida. Será?! Quase perguntei para ela. Imagina se ela estive, eu poderia ser o primeiro a dar os parabéns para o Estupidozinho Jr.

Olhei para ela, e na mesma hora ela levou a mão na boca, inflou as bochechas e…. e eu arregalei o olho, apavorado, e com medo de que ela vomitasse em cima de mim. Porra! Eu tinha tomado o meu banho, passado meu perfumezinho. Era só o que me faltava. Mas, ela deve ter ficado constrangida com minha cara de espanto que deve ter engolido de volta a mortadela, ou a cerveja, ou a maionese, ou o filho…

Mas sabe que eu fiquei com dó dela. Deve ser foda estar mal, com ânsia de vômito, e ainda num ônibus balançando o dia inteiro. E olha que o motorista não estava nem aí para a guria. Pisou naquele acelerador com vontade, como faz todos os dias. Buraco na estrada, curvas, ele nem estava. E a guria naquele estado, mão na barriga, meio vesga, com cara de cão que caiu da mudança. Mas não é um cão simples, é um cão estúpido e com mal estar.

Eu não poderia ficar ali parado vendo a guria prestes a vomitar. Tinha de tomar uma providência, e logo. Aí que fiz o que deveria ter feito logo de cara: peguei minha mochila, a passagem, entreguei para ela e vazei para frente. Não poderia correr o risco de chegar todo vomitado no trabalho. Ainda mais em uma segunda-feira “daquelas”. E “daquelas” mesmo. Minha renite chegou ao apogeu. Um ataque sinistro. Mas essa é uma outra história, que você verá nesse mesmo horário, e nesse mesmo canal.

Star City, 09 de fevereiro de 2009, Jhony’s Badroom, às 19h30min.

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