
O Senhor que tomou um Red Bull
17/01/2009Um longo dia de trabalho viria pela frente e eu já estava atrasado por conta do forte sono que fez com que eu ficasse além do tempo devido na cama, enrolando e criando coragem para levantar. Minhas noites não eram das melhores, não conseguia dormir direito, tinha dificuldades para pegar no sono, rolava até altas horas na cama. Resultado: acordava cansado e indisposto. Mas não poderia me dar o luxo de deixar de ir trabalhar.
Levantei mal humorado, em silêncio – como sempre -, tomei o café da manhã, o banho, peguei minhas coisas, coloquei na mochila tudo o que precisava, e o livro que estava lendo enquanto ia ao trabalho. O livro era Iracema, um clássico literário de José de Alencar. Como eu não havia lido na época do ensino médio, e agora, no ensino superior havia adquirido um imenso gosto pela leitura, resolvi ler o clássico e saciar minha curiosidade.
Estava eu saindo de casa quando lembrei de algo que, pela pressa, havia esquecido. O desodorante. O calor era forte. O dia começava como sol bastante intenso, e como eu estava atrasado, teria de caminhar rápido, o que resulta em suor excessivo, anda mais que suo além do normal. Após aplicar o desodorante nos “sovacos”, saí apressado. Da minha casa até a parada de ônibus são cerca de oito minutos mais ou menos. Aquele dia eu teria de fazê-lo em cinco.
Cheguei na parada de ônibus um pouco suado, um pouco ofegante, e logo fui abrindo o livro. Não demorou mais de um minuto para que o ônibus chegasse. Entrei e sentei na janela em um banco que ficava antes da catraca. No ônibus as pessoas de todos os dias, sentadas mais ou menos nos mesmos lugares de sempre. O ônibus se deslocou até a rodoviária, que era a parada seguinte da minha. Entrou mais uma porção de gente. Entre eles um velhinho que eu não havia visto ainda.
O velhinho era bem vestido. No estilo dele, mas era. Calça social em um tom bem discreto, camisa social devidamente abotoada e por dentro das calças, em um tom de verde musgo, mas um pouco mais claro. E sobre sua cabeça, um chapéu de feltro no mesmo tom das calças. O chapéu parecia novo, recém comprado, e escondia boa parte dos poucos fios de cabelo branco que tinha. Apesar da idade avantajada, ele não parecia ter aquele cheiro de naftalina costumeiro da terceira idade.
O senhor apresentou sua carteirinha de idoso para a cobradora da empresa (que era uma estupidez em pessoa, diga-se de passagem), pagou e sentou no banco a minha frente. Eu segui minha leitura de Iracema sem dar muita bola para muita coisa. Quando de repente o forte calor do dia começou a surtir efeito. E não era o calor que eu sentia, mas o efeito que surgia no senhor idoso: um forte odor de “asa”.
Era um cheiro azedo, forte, desconcertante. Cheguei a me cheirar várias vezes para me certificar de que não era em mim, de tão forte que era. Olhei para a cobradora e ela franziu a testa. No livro eu lia uma passagem onde falava, na forma poética do autor, de doces cheiros, e aquele cheiro de “asa” tomando conta do ônibus. Eu até pensava :”como fede essa a floresta da Iracema”.
Pobre do senhor, não tem culpa de suar, e feder a “asa”. O calor era forte, o tecido da camisa do velhinho não me parecia das mais leves, e o ar condicionado do ônibus não surtia efeito. Dei uma olhada na minha mochila para ver se não encontrava um desodorante. Mas não encontrei. Se tivesse, eu ofereceria para o senhor, amenizando o desconforto de quem estava na volta dele. O pior de tudo é que ele nem deveria saber do seu odor.
Fiquei com pena do senhor, mas em seguida pensei: “puta merda! se eu quase me atrasei para voltar para casa e colocar o desodorante, porque ele não poderia fazer o mesmo?”. Até porque ele era bem ajeitado, falta dinheiro não seria, ainda mais com aquele chapéu novinho que ele usava sobre a careca branca.
Foi um alívio quando cheguei na parada de ônibus próximo ao Tabelionato, desci, e dei uma bela de uma cheirada nas minhas axilas, sentindo o cheiro gostoso do meu desodorante. Senti-me o cara mais cheiroso do pedaço, e até minha auto-estima subiu. Fui trabalhar até mais feliz e disposto.