Bem que eu havia desconfiado que o meu remédio da rinite me daria um “baita” sono, mas não imaginei a proporção dele. Hoje eu senti o efeito daquele pequeno comprimidinho. Efeito de grandes proporções, inclusive me impulsionando a escrever este artigo. O nome do remédio é “Decongex Plus”. São dois pequenos comprimidos por dia, um pela manhã e um pela noite, para aliviar sintomas de gripe, rinite, sinusite. É um descongestionante antialérgico poderoso. Já havia usado ele no primeiro tratamento da rinite, mas o efeito eu não me recordava. Não assim.
A rinite é uma inflamação da mucosa do nariz. Ela ocorre como reação do organismo a um agente que invade essa estrutura. A mucosa, que reveste a cavidade chamada corneto, está sujeita à agressão das partículas, principalmente a da região inferior. Como conseqüência, aumenta de volume, reduz a passagem de ar e dá a sensação de nariz entupido. Resumindo: é uma merda!, ficar com o nariz ora escorrendo, ora entupido, tendo dificuldade para respirar e tendo constantes ataques de espirros, ou pela presença de poeira, ou pela mudança de temperaturas dos ambientes.
Com todos os sintomas descritos, não há como não ficar de mau humor. A vontade de que passe logo a reação alérgica é tanta que se enfia todo tipo descongestionante no nariz. E isso acaba piorando a situação. Quem sofre desse mal rende menos no trabalho, nos estudos, além de ter afetada a convivência social, tendo de estar sempre prevenido com lenços, remédios, e cuidando as mudanças de temperatura. Não é a todo lugar que se pode ir, não é toda atividade e em toda hora que se possa realizar, porque pode haver um desencadeamento de espirros e coriza incontroláveis e irritantes, até mesmo para quem está por perto.
Então vamos lá senhor Jhony, de volta ao tratamento da rinite.
Bela manhã de quarta-feira, depois de uma noite mais ou menos bem dormida, com aquele cansaço rotineiro, e com o relógio sempre contra mim. Café da manhã tomado, banho, almoço na mochila, e remedinho goela a baixo. Eu ainda comentei com a minha mãe: “Não é esse o remédio que dá sono não?!”. E ela respondeu: “eu não lembro. Mas acho que não. Lê a bula.” O que dizia na bula era sobre a sonolência excessiva causada se o comprimido fosse tomado com outro tipo de remédio para insônia, depressão, ou algo do tipo. Aí pensei que não era o meu caso, e tomei o remédio bem “tranqüilão”.
Tomei o ônibus e fui tranqüilo ao trabalho, com o nariz respirando normalmente, sem nenhum espirro e sem nenhuma “fungada”. Uma beleza. É tão bom que custa para acreditar. Mas eu estava me sentindo bem. Só um pouco sonolento. Bem, o sono eu sinto todo dia quando vou trabalhar, não seria diferente na quarta-feira do dia 21 de janeiro de 2009. Enganei-me um pouco – um pouco bastante.
Depois de largar minhas coisas no armário, colocar o sapato, e me dirigir até os guichês onde eu atendo os clientes do Tabelionato, eu vi que algo não estava muito certo não. Eu estava raciocinando um pouco menos rápido do que o normal. Nem o meu pensamento estava acelerado como de costume. O cansaço estava grande, e eu sem vontade de atender. Começou a “soneira”.
O primeiro atendimento do dia foi normal, tranqüilo, sem nada de mais. O segundo também. Até brinquei que havia faturado vinte reais e quarenta centavos ao tabelionato em apenas dois atendimentos. Só que o sono foi aumentando, bem ao contrário do que acontecia em todos os dias. Quando eu me reparava, estava olhando para o vazio, quase sonhando. Até algumas coisas sem nexo escapavam da minha boca. Espero que ninguém tenha notado.
Aí entrou uma senhora com um documento onde deveriam assinar duas testemunhas. A senhora estava sozinha. Pensei que não havia nenhuma das assinantes presente, porque quando isso ocorre, elas logo se apresentam no guichê para serem reconhecidas pelo atendente. Fui até o arquivo e procurei as fichas das duas mulheres. Voltei com a ficha na mão, de uma delas. A outra eu encontrei no sistema de computador e não precisei achá-la no arquivo dos cadastros antigos. A essas alturas eu não conseguia mais prestar atenção em muita coisa.
A que tinha o cadastro no computador eu pedi se estava presente e a senhora disse que não. Para reconhecer a assinatura da outra, dirigi a mesma pergunta à velhinha, e ela disse que sim, e só então a assinante apareceu. Confirmei, para ver se era ela mesma e fiz o reconhecimento. O procedimento que eu deveria seguir seria a abertura da ficha cadastral da testemunha que ali estava, e que só tinha o cadastro antigo. Só que o soneca aqui, mais para lá do que para cá, nem se ligou nesse pequeno – pequeno grande – detalhe e reconheci sem as atualizações devidas.
Pedi o nome para o recibo e despachei as velhinhas para esperarem no caixa. Depois de ter colado as etiquetas do reconhecimento da assinatura que eu vi que havia feito uma cagada. Fiz os dois reconhecimentos por autenticidade, sendo que deveria ter sido um por autenticidade e o outro por semelhança. Fiquei puto comigo mesmo. Imprimi o recibo e tive de cancelá-lo logo em seguida. Cancelar um recibo não é nada legal. Além de ficar registrado com o meu nome, é sinal de erro. Descolei as etiquetas lentamente para não danificar o documento e fui refazer o reconhecimento de firma. A questão do cadastro larguei de mão. O importante era fazer certo e logo o reconhecimento, pois as pobres coitadas ainda estavam lá esperando.
Respirei fundo, esfreguei os olhos e comecei a refazer. Só que eu nem lembrava mais qual deveria ser por autenticidade e qual por semelhança. Raciocinei um tempo e por dedução fiz como achei que fosse. Mas fiz certo. Resolvido a cagada do dia. Peguei as etiquetas que sobraram e coloquei dentro da gaveta da Cassiana, minha colega de trabalho do guichê ao lado. Ela nem percebeu. Eliminei as provas contra mim – que pau no cu.
Chamei o próximo cliente. Era uma declaração de residência. Olhei por cima aquele texto mal escrito e pedi ao cliente se era ele quem estava declarando residência. Ele afirmou que sim e eu com sono e de saco cheio – não sei o motivo – fui logo pedindo o CPF e a Carteira de Identidade do cidadão. Ele de pronto me entregou e eu fui fazendo o cadastro dele. Preenchi os dados, tirei a foto, coletei a digital, digitalizei os documentos, tudo bem feito, me concentrando para não cometer nenhum erro. Feito o cadastro, fui colocar a seta na assinatura dele e vi que não fechava, era outro nome. Só então fui ler bem a declaração de residência e vi que não era ele quem declarava, e sim o titular do endereço que o fazia pelo cliente que ali estava. Quase bati no cara, que, na sua ignorância, disse que era ele quem declarava. Mas isso ficou só no meu íntimo. Ainda mais que o rapaz era do Morro XXV. Fiz de conta que estava tudo normal e reconheci a assinatura do senhor que havia declarado e despachei o rapaz.
Aí foi demais. Com a velhinha eu deixei de fazer o cadastro que precisava, e com o gurizão eu fiz um que não precisava. Sem falar nas duas etiquetas que geraram uma nota cancelada. O dia não estava para mim. Quando eu me levantava da cadeira e parava, via tudo estranho. Eu só pensava na minha cama deliciosa, no meu edredom, no conforto do meu quarto. E isso me fez ir até a cozinha e tomar três copos cheios de café puro, para ver se acordava, mas nem isso adiantava. Ô comprimidinho do “diaabo”!
No horário de almoço quase dormi sentado. Li a doutrina de Direito Civil e não absorvi nada. Só lembro que enquanto eu lia, imaginava no que estaria fazendo em casa naquela hora. Pensava que seria melhor ainda se estivesse na companhia da minha namorada, trocando uns carinhos, alguns beijos. Só que eu estava muito estressado, sem saco e chato para mais de metro. E a minha garota não merece isso.
A tarde veio e com ela mais alguns copos de café. Só dei uma acordada quando ocorreu um apagão e ficamos um bom tempo sem energia elétrica no Tabelionato. Não só no Tabelionato, mas em toda cidade de Lajeado. O atendimento teve de ser manual, o número de clientes aumentou e o serviço estava mais lento. A correria pegou e isso fez com que, de forma forçada, eu ficasse um pouco mais esperto. E o efeito do remédio estava passando também.
Quando cheguei em casa, por volta das 6:45 da tarde, fui “reto” ao sofá e me deitei. Que delícia. Aquele sofá
nunca foi tão confortável. Aquela programação da televisão nunca foi tão agradável. Eu finalmente poderia deitar e dormir, nem que fosse no chão. Finalmente eu estava de pernas para cima, relaxando, sem pressão, sem me cuidar. Era só vegetar e curtir o momento “zem”. Só que o sono que eu queria sentir estava passando. Na hora errada. Agora sim eu poderia sentir sono sem problema algum. E ele estava indo embora. Comecei a ficar puto de novo. Só que eu estava tão cansado que nem isso conseguia fazer.
Depois do lanche e depois de ter falado com a minha garota linda pelo telefone, voltei a ingerir o tal comprimidinho porreta que me deixou “legalzão”. Já fazem meia hora que o tomei, e isso significa que já estou quase deitado na cadeira da escrivaninha do meu quarto na frente desse bom amigo computador. Os olhos diminuem e a cama atrás de mim me convida a celebrar a arte de dormir.
Um sentimento de satisfação toma conta de mim, porque agora sim, poderei dormir sossegado. Chegou o momento pelo qual eu esperei durante o dia inteiro. Então, boa noite pessoal. Ah, claro. As etiquetas da gaveta da Cassi eu recolhi no fim do dia, sem que ninguém soubesse que lá estavam, sem prejuízo à minha amiga.
Jhony, 21 de janeiro de 2009.

