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Trabalho ao cubo

03/08/2008

O ano era 2007. O mês… setembro ou outubro, não me recordo. Mas aqueles dias trabalhando que nem um bicho, eu não esqueço jamais. Dias suados, doloridos, longos, intermináveis. Dias de superação, dentro do atelier de calçados em que trabalhei.

Eu estava trabalhando em um modelo de sandália feminina, bem delicada e bonita. Era início de dias quentes, e para o verão entraram modelos novos naquela esteira onde eu estava. Na verdade era uma fabricação fora da esteira, com um grupo pequeno de pessoas. Eu trabalhava por três, fazendo toda a preparação do calçado: perfurando (com vazador e martelo), passando cola, botando a fivela, fazendo o perfuro na tira de afivelar. Apesar do excesso de serviço, para mim estava bom.

Até que iniciou em outra esteira um modelo novo na fábrica, para uma grande marca brasileira. Início de modelo, o pessoal ainda em fase de aprendizagem e faltavam algumas pessoas para preencher o número de colaboradores. Como eu estava sem serviço no momento, o Carlos (gerente do atelier), que me viu ajudando uma costureira, fora do meu posto, me chamou para iniciar um serviço: colar as “bolinhas” no tope do sapato, e depois cravar um rebite, um cravo nas pontas do tope. De início parecia tudo muito tranqüilo. Mas mal sabia eu a encrenca em que me meteria.

Tudo ocorria bem, a Rosana me ajudava, e eu só colocava os cravos, em uma máquina manual, em sistema de alavanca. Era uma barbada, fácil até demais. Até os cravos começarem a entortar. Um par colocado torto. Pensei: “ah, não dá nada, o próximo vai ficar bom”. Dois pares, três, quatro… Já começava a bater o desespero.

Eu não estava me acertando com a matriz, o serviço estava atrasando, os cravos ficando tortos. Foi uma briga até o persistente Carlos me ajudar a achar a melhor forma de “rebitar”. Peguei o jeito de novo e tudo ocorria bem.

Durante uns quatro dias tive a ajuda da Rosana, trabalhávamos em dupla e vencíamos o serviço de forma tranqüila. Estávamos sempre adiantados, e dava tempo de, volta e meia, tomar uma água e conversar com alguém. Até o dia em que o cronometrista apareceu.

Chegou ele, de peito estufado, cara fechada e seu cronômetro na mão. Chegou e logo pôs os olhos em minha mesa. Viu que havia duas pessoas trabalhando em um serviço que deveria ser realizado por uma só. Logo falou com o revisor da empresa que nos fornecera o sapato que fazíamos e eles de pronto vieram averiguar. Iniciava aí minha ruína.

Rosana teve de sair, deixando de me ajudar, e eu passei a fazer o que ela fazia e mais o meu serviço. O cronometrista mediu o tempo, e disse que eu tranqüilamente poderia realizar aquelas operações sozinho, produzindo sessenta e cinco pares por hora, que era número de calçados que entrava na esteira a cada cinqüenta minutos. Só que ficava extremamente justo para mim: dava tempo para realizar o serviço, mas não sobrava pra mais nada, era sem parar, e rápido.

Dois dias assim, e eu já estava até com prática. Meu alívio se dava quando a esteira vinha com folga. Aí eu corria até o bebedouro e tomava uns rápidos goles d’água. Até que o gerente Carlos teve a brilhante (ironia pura) idéia de aumentar a produção para setenta e cinco pares por hora, sendo mais cem pares produzidos por dia. Resultado: tomei no cu!

Eram dez pares a mais por hora, totalizando cem no fim do dia. Eu trabalhava rápido, pra conseguir vencer a esteira. Para os que estavam de fora, era algo extraordinário a forma que eu trabalhava. Eu parecia uma máquina, programada para fazer sempre as mesmas coisas, em sincronia. As mãos se mexiam de forma automática, pegando o tope, passando a cola, colando as peças circulares nas pontas, colocando o cravo dentro da matriz e cravando-os nas peças que eu havia colado. Era um tope por pé. Os dedos ficavam cheios de cola, do tipo “Super Bonder”. Quando ela secava na mão, se formava uma casca dura. Para tirar, só em casa, com água quente, e alguns puxões e esfregões.

Mas o pior de tudo era a dor nas costas. A alavanca da matriz era para a mão direita, mas eu dava um jeito de cravar o rebite com a esquerda, tamanha era a dor nos ombros e principalmente nas costas. Em uma semana cheguei a ir duas vezes na farmácia para tomar uma injeção para dor. O efeito era bom, até o outro dia de trabalho.

As cinco e meia da tarde, quando tocava o sinal para irmos embora, só faltava eu me ajoelhar e levar as mãos ao céu, tamanha era a minha alegria em poder ir para casa. Quando ia para casa, porque em três dias da semana eu tinha aula. Chegava na universidade me arrastando, ia para sala de aula, e quase dormia na classe. O esforço era grande para não pegar no sono, e para conseguir absorver as explicações dos professores.

Enquanto trabalhava eu pensava em tanta coisa. Tanta coisa vinha à minha mente. Pensava no livro que escreveria, relatando aqueles dias de sufoco e, posso assim dizer, humilhação. Pensava naquilo tudo que quero conquistar. Pensava no futuro, me vendo formado, longe daquele inferno em que eu estava vivendo. Via-me dentro do meu escritório, com meus processos em mão, trabalhando duro, sim, mas não de forma humilhante e desgastante.

Procurava pensar em coisas boas, para fugir daquela depressão e desânimo que me abatia. Procurava encontrar brechas para poder escapar daquilo ali, daquelas dores, daquela pressão, daquela loucura em que eu estava, trabalhando de forma acelerada, tendo de raciocinar de forma muito rápida, sem pensar duas vezes. Esperava também um pingo de piedade. Sem sucesso algum.

Até que um dia, por motivo de uma forte gripe, recebi da médica da empresa dois dias de atestado. Carlos foi à loucura. Mas teve de respeitar, pois eu estava realmente muito mal. Naquele dia, após ter o atestado em mãos, não pensei duas vezes em virar as costas e ir para casa repousar. Nem pensei se causaria prejuízo pela minha falta. Fui egoísta, sim, pensei em mim, já que ninguém o fizera.

E após os dois dias, quando voltei, fiquei sabendo que haviam posto três pessoas em meu lugar, para conseguirem vencer a produção. Qual a minha reação? Indignação total! Fiquei extremamente chateado, triste, e até mesmo enfurecido. Esbravejei ao Carlos, pedindo que colocasse algum ajudante para amenizar o meu desgaste. Depois que ele viu que eu estava realmente em apuros, Rosana voltou a me ajudar, e o serviço ficou bem mais tranqüilo. Como havia aumentado a produção, não tínhamos mais toda aquela folga, mas pelo menos eu podia saciar a sede naqueles dias tão quentes.

Hoje, quando olho para trás, voltando àqueles dias sofridos, vejo que não foi tão terrível assim. Eu superei. Foi difícil, foi humilhante, mas eu superei. Sempre acreditei no ditado de que Deus nunca dá a carga maior do que possamos carregar. E, realmente, é fato. Passamos por situações difíceis, desesperadoras, mas, passamos. Enquanto vivemos aquele momento horrível, achamos ser impossível resolvê-lo. Porém, depois de passarmos pela tempestade, vemos que isso na verdade nos engrandece. É como diz a velha frase: o que não nos destrói nos fortalece.

Hoje eu sou um cara que tem uma história de superação para contar. Foi extremamente difícil, mas não impossível. Vi que superei limites, enfrentei minhas dificuldades e passei por dores físicas terríveis, mas hoje estou aqui, mais humilde, mais preparado para encarar o que virá adiante. Porque eu levantei a cabeça, não desisti, e superei as dificuldades. Posso dizer, com isso, que eu sou um vitorioso.

Um comentário

  1. Oi jhony….
    já tinha lido o teu blog…e na verdade muitos posts dele…
    acho que você realmente deve escrever um livro…
    e vou gostar…
    prometoque compro…:D

    Ah! meu nome é indira e não indiara como tu escreveu no blog!

    Beijos
    DTA
    INDIRA



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