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Jerônimo

12/07/2008

Jerônimo. Um rapaz de dezoito anos, esforçado, bem humorado, brincalhão. Trabalha em uma fábrica de calçados, ganhando seu mísero salário. Os estudos deixou pra trás, onde os sonhos se perderam na realidade e no cansaço de uma vida dura e injusta. Ambições, tem mil… Mas um certo comodismo lhe tomou o espírito de homem mundano, que segundo Maquiavel, é ávido de lucro.

Apesar das dificuldades de morar em um lugar humilde, de ter um trabalho duro, um salário injusto, Jerônimo chega a ser, muitas vezes, até chato, de tanto que brinca com os colegas e as pessoas que o rodeiam. Alguns perdem a calma com ele. Mas ele se mantém o mesmo, ora revida a altura, ora revida com outra brincadeira. Resumindo: Jerônimo é um rapaz alegre, que ri até da própria desgraça.

Só que, em um dia, Jerônimo não tinha mais aquela malevolência moleca no olhar. Estava quieto, sereno, olhar fundo, semblante digno da mais nobre empatia. Não era o Jerônimo que todos estavam acostumados a ver. E havia um motivo para sua tristeza e serenidade.Um dia antes, seu avô, pessoa com quem ele dividia o lar, falecera, de forma muito rápida, repentina. Ele já estava doente, passando por maus momentos em uma cama de hospital. Uma isquemia cerebral o abatera, e ele estava apenas com seus órgãos vitais a funcionar, esperando para que parassem e o fim da vida terrena fosse decretado.

No dia da morte de seu avô, Jerônimo pôde se ausentar do trabalho. Porém, no outro dia, deveria estar e esteve lá, para cumprir sua função e realizar seu trabalho desgastante. Quieto ele trabalhava, com o olhar perdido, meio de choro, mas sempre sério. Não pude deixar de expressar minha palavra amiga ao cara que sempre aperta bem firme a minha mão ao me cumprimentar. Ele comovido me agradeceu, e eu saí com o sentimento de ter feito tão pouco perto da dor da perda de Jerônimo.

Dor que passava ali, diante de uma esteira cheia de sapatos. Não podia nem estar junto a sua família naquele dia difícil, no dia seguinte à morte de uma pessoa tão presente na sua vida, que até mesmo morava com ele. Devia trabalhar, segundo manda a lei, segundo a regra trabalhista. Sua tia (filha do falecido) teve dois dias para ficar em casa e se recuperar da dor. Também é muito pouco diante de uma perda tão relevante.

E aí se pensa: como as coisas são injustas. O sentimento foi completamente esquecido por parte dos superiores do atelier de calçados (apelidado, carinhosamente, de presídio). Poderiam eles dar mais um tempo para que Jerônimo pudesse descansar, refletir e buscar as forças de que precisava. Nem quero falar da lei. Não quero entrar em uma nova discussão. Porém, fico triste por não haver bom senso por parte da fábrica de calçados.

Então Jerônimo se recupera da dor da perda de seu avô, pessoa com quem dividia a intimidade, pessoa tão querida por ele, entre os sapatos da fábrica de calçados onde trabalha. Recupera-se com um salário ridículo que sempre atrasa. Recupera-se tendo de aturar a arrogância das pessoas com quem divide o espaço. Recupera-se com o desgaste físico.

Jerônimo. Um rapaz de dezoito anos, que vive a dor da perda de uma pessoa tão querida, e que tenta recuperar o brilho do olhar moleque e brincalhão, entre uma e outra brincadeira meio disfarçada da tristeza estampada em seu rosto.

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