Jhony Blues

Vem comigo num domingo voar no meu balão.

Mais algumas do ônibus

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Indo para a parada de ônibus hoje pela manhã, eu pensava sobre a falta de acontecimentos bizarros ocorridos no ônibus. Quase todo dia acontecia algo estranho e anormal, e, nos últimos dias nada de tão assustador. Na verdade, nada foi algo tão assustador. O velhinho “azudo” não é assustador, por exemplo, mas é pitoresco, nojento, ou posso dizer que é até engraçado, pelo fato de as oito e meia da manhã alguém já estar fedendo daquele jeito.

A última que tinha me acontecido foi a da mulher que me esmagou no banco do ônibus. Era um dia absolutamente normal: eu com sono, o ônibus não tão cheio, temperatura amena, não tão quente, ameaçando chover, todo mundo de cara amarrada no ônibus. Diferente do meu costume, nesse dia sentei lá na frente, quase atrás do motorista, naqueles bancos vermelhos para idosos, deficientes e gestantes. Se alguém me questionasse eu diria que estava “grávido”. Mas ninguém ousou. Até porque pela manhã ninguém tem muita vontade de abrir a boca, a não ser para bocejar e exalar aquele gosto de cabo de guarda-chuva de quando se levanta da cama, mesmo após ter escovado os dentes.

Sentado lá na frente eu seguia com meus pensamentos. Até que entrou uma mulher com uma criança no colo. Ao contrário de todo mundo, a tal mulher entrou pela porta da frente. Para não precisar quase atravessar o ônibus para se sentar, ela viu que tinha um banco vago ao lado do “grávido” com cara de sono, mal humorado e de mochila, e ali resolveu sentar. Tudo bem. Não ia me opor ao fato. Não ia porque não sabia do que a mulher ia fazer comigo.

Sentou-se, com a criança no colo e um guarda-chuva. E quando sentou ocupou um banco e um terço do que eu estava sentado. Tudo bem, fechei as pernas, ajeitei minha mochila e fiquei na minha. Aí a mulher começou a se remexer no banco, se ajeitando. Comecei a suspeitar que a mulher estivesse com alguma coceira na “busanfa”. Mas era para acomodá-la melhor, enquanto eu ia cada vez mais próximo da janela.

Ela era uma mulher que aparentava ter uns quarenta e poucos anos, pele bem morena, cabelos lisos e grossos e era meio gordinha. Mas não era uma gorda parelha, se é que me faço entender. Usava roupas simples e um perfume que me tonteou. Putaqueopario! Que perfume forte e ruim. Era doce, e de tanto que ela passou, dava para sentir o cheiro do álcool. Acredito que seja daqueles de espirrar, onde cê aperta o tubo inteiro para aplicá-lo. Nossa, me sufocou aquele cheiro. E além de me sufocar com o cheiro, ela me sufocava contra a janela. A cada curva ela tomava conta de mais uma porção do meu banco.

Nessas horas a gente perde a empatia. Nessas horas eu pensava: “mas que merda, esse tribufu tá me esmagando. Se ela quisesse ocupar o meu banco, deveria ter pedido, e não me empurrado”. Eu tinha vontade de pedir para ela se ela tinha chuveiro em casa. Eu acredito que não, porque o banho que ela tomou foi daquele perfume vagabundo e catinguento. Eu tinha medo de ficar com o cheiro da mulher, de tanto que ela me esmagava contra a janela. Eu tinha vontade de empurrar ela também. Mas ela tava com a criança no colo. Aí comecei a mentalizar a tal da mulher descendo, e levando o cheiro catinguento dela embora. Eu estava até com medo de ficar com aquele cheiro também.

Depois que ela desceu me aliviou o nariz. Já estava me atacando a renite. Desci na minha parada e me cheirei bem para assegurar de que eu estava com o MEU cheiro. E graças a Deus eu estava.

***

Depois dessa da mulher, só a de hoje. Nada de muito estranho também. Só que eu acho que a guria deve ter se sentido pior depois que eu olhei para ela. Eu também não fiquei muito confortável.

Entrei no ônibus e sentei no banco em frente à cobradora. Eu nunca conversei com ela, apesar de pegar o ônibus todos os dias. É que ela me deixa triste e irritado. Trata as pessoas com estupidez, principalmente os idosos. Está certo que tem uns velhinhos que são chatos pra caralho, mas mesmo assim ela poderia ter um pouco mais de paciência e delicadeza.

Quando estávamos na rodoviária, entrou uma família bem “grandinha”, um monte de criança e uns adultos gritões. Ela, a cobradora, logo disse: “ai meu Deus!”. E eu logo pensei: “pronto, a estúpida já vai descontar na família Buscapé.” Quando olhei pra ela vi que o “ai meu Deus” não era referente ao pessoal, e sim ao estado em que ela se encontrava. O motorista lá da frente olhou para ela e ela disse, sem emitir som, apenas com movimento dos lábios: “eu to mal, vô vomitáá!” A mente de Jhony Walker imaginou uma série de motivos: vai ver ela havia tomado todas no domingo, naqueles bailões que vão da uma da tarde até a hora da última coroa estar dançando; ou talvez ela pudesse ter comido, no café da manhã, uma mortadela estragada, comprada na quarta-feira da semana passada; poderia ser a salmonela da maionese; ou ela poderia estar grávida. Será?! Quase perguntei para ela. Imagina se ela estive, eu poderia ser o primeiro a dar os parabéns para o Estupidozinho Jr.

Olhei para ela, e na mesma hora ela levou a mão na boca, inflou as bochechas e…. e eu arregalei o olho, apavorado, e com medo de que ela vomitasse em cima de mim. Porra! Eu tinha tomado o meu banho, passado meu perfumezinho. Era só o que me faltava. Mas, ela deve ter ficado constrangida com minha cara de espanto que deve ter engolido de volta a mortadela, ou a cerveja, ou a maionese, ou o filho…

Mas sabe que eu fiquei com dó dela. Deve ser foda estar mal, com ânsia de vômito, e ainda num ônibus balançando o dia inteiro. E olha que o motorista não estava nem aí para a guria. Pisou naquele acelerador com vontade, como faz todos os dias. Buraco na estrada, curvas, ele nem estava. E a guria naquele estado, mão na barriga, meio vesga, com cara de cão que caiu da mudança. Mas não é um cão simples, é um cão estúpido e com mal estar.

Eu não poderia ficar ali parado vendo a guria prestes a vomitar. Tinha de tomar uma providência, e logo. Aí que fiz o que deveria ter feito logo de cara: peguei minha mochila, a passagem, entreguei para ela e vazei para frente. Não poderia correr o risco de chegar todo vomitado no trabalho. Ainda mais em uma segunda-feira “daquelas”. E “daquelas” mesmo. Minha renite chegou ao apogeu. Um ataque sinistro. Mas essa é uma outra história, que você verá nesse mesmo horário, e nesse mesmo canal.

Star City, 09 de fevereiro de 2009, Jhony’s Badroom, às 19h30min.

Written by jhonywalker

12 Fevereiro,09 em 9:00 pm

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Comprimido do sono

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Bem que eu havia desconfiado que o meu remédio da rinite me daria um “baita” sono, mas não imaginei a proporção dele. Hoje eu senti o efeito daquele pequeno comprimidinho. Efeito de grandes proporções, inclusive me impulsionando a escrever este artigo. O nome do remédio é “Decongex Plus”. São dois pequenos comprimidos por dia, um pela manhã e um pela noite, para aliviar sintomas de gripe, rinite, sinusite. É um descongestionante antialérgico poderoso. Já havia usado ele no primeiro tratamento da rinite, mas o efeito eu não me recordava. Não assim.

A rinite é uma inflamação da mucosa do nariz. Ela ocorre como reação do organismo a um agente que invade essa estrutura. A mucosa, que reveste a cavidade chamada corneto, está sujeita à agressão das partículas, principalmente a da região inferior. Como conseqüência, aumenta de volume, reduz a passagem de ar e dá a sensação de nariz entupido. Resumindo: é uma merda!, ficar com o nariz ora escorrendo, ora entupido, tendo dificuldade para respirar e tendo constantes ataques de espirros, ou pela presença de poeira, ou pela mudança de temperaturas dos ambientes.

Com todos os sintomas descritos, não há como não ficar de mau humor. A vontade de que passe logo a reação alérgica é tanta que se enfia todo tipo descongestionante no nariz. E isso acaba piorando a situação. Quem sofre desse mal rende menos no trabalho, nos estudos, além de ter afetada a convivência social, tendo de estar sempre prevenido com lenços, remédios, e cuidando as mudanças de temperatura. Não é a todo lugar que se pode ir, não é toda atividade e em toda hora que se possa realizar, porque pode haver um desencadeamento de espirros e coriza incontroláveis e irritantes, até mesmo para quem está por perto.

Então vamos lá senhor Jhony, de volta ao tratamento da rinite.

Bela manhã de quarta-feira, depois de uma noite mais ou menos bem dormida, com aquele cansaço rotineiro, e com o relógio sempre contra mim. Café da manhã tomado, banho, almoço na mochila, e remedinho goela a baixo. Eu ainda comentei com a minha mãe: “Não é esse o remédio que dá sono não?!”. E ela respondeu: “eu não lembro. Mas acho que não. Lê a bula.” O que dizia na bula era sobre a sonolência excessiva causada se o comprimido fosse tomado com outro tipo de remédio para insônia, depressão, ou algo do tipo. Aí pensei que não era o meu caso, e tomei o remédio bem “tranqüilão”.

Tomei o ônibus e fui tranqüilo ao trabalho, com o nariz respirando normalmente, sem nenhum espirro e sem nenhuma “fungada”. Uma beleza. É tão bom que custa para acreditar. Mas eu estava me sentindo bem. Só um pouco sonolento. Bem, o sono eu sinto todo dia quando vou trabalhar, não seria diferente na quarta-feira do dia 21 de janeiro de 2009. Enganei-me um pouco – um pouco bastante.

Depois de largar minhas coisas no armário, colocar o sapato, e me dirigir até os guichês onde eu atendo os clientes do Tabelionato, eu vi que algo não estava muito certo não. Eu estava raciocinando um pouco menos rápido do que o normal. Nem o meu pensamento estava acelerado como de costume. O cansaço estava grande, e eu sem vontade de atender. Começou a “soneira”.

O primeiro atendimento do dia foi normal, tranqüilo, sem nada de mais. O segundo também. Até brinquei que havia faturado vinte reais e quarenta centavos ao tabelionato em apenas dois atendimentos. Só que o sono foi aumentando, bem ao contrário do que acontecia em todos os dias. Quando eu me reparava, estava olhando para o vazio, quase sonhando. Até algumas coisas sem nexo escapavam da minha boca. Espero que ninguém tenha notado.

Aí entrou uma senhora com um documento onde deveriam assinar duas testemunhas. A senhora estava sozinha. Pensei que não havia nenhuma das assinantes presente, porque quando isso ocorre, elas logo se apresentam no guichê para serem reconhecidas pelo atendente. Fui até o arquivo e procurei as fichas das duas mulheres. Voltei com a ficha na mão, de uma delas. A outra eu encontrei no sistema de computador e não precisei achá-la no arquivo dos cadastros antigos. A essas alturas eu não conseguia mais prestar atenção em muita coisa.

A que tinha o cadastro no computador eu pedi se estava presente e a senhora disse que não. Para reconhecer a assinatura da outra, dirigi a mesma pergunta à velhinha, e ela disse que sim, e só então a assinante apareceu. Confirmei, para ver se era ela mesma e fiz o reconhecimento. O procedimento que eu deveria seguir seria a abertura da ficha cadastral da testemunha que ali estava, e que só tinha o cadastro antigo. Só que o soneca aqui, mais para lá do que para cá, nem se ligou nesse pequeno – pequeno grande – detalhe e reconheci sem as atualizações devidas.

Pedi o nome para o recibo e despachei as velhinhas para esperarem no caixa. Depois de ter colado as etiquetas do reconhecimento da assinatura que eu vi que havia feito uma cagada. Fiz os dois reconhecimentos por autenticidade, sendo que deveria ter sido um por autenticidade e o outro por semelhança. Fiquei puto comigo mesmo. Imprimi o recibo e tive de cancelá-lo logo em seguida. Cancelar um recibo não é nada legal. Além de ficar registrado com o meu nome, é sinal de erro. Descolei as etiquetas lentamente para não danificar o documento e fui refazer o reconhecimento de firma. A questão do cadastro larguei de mão. O importante era fazer certo e logo o reconhecimento, pois as pobres coitadas ainda estavam lá esperando.

Respirei fundo, esfreguei os olhos e comecei a refazer. Só que eu nem lembrava mais qual deveria ser por autenticidade e qual por semelhança. Raciocinei um tempo e por dedução fiz como achei que fosse. Mas fiz certo. Resolvido a cagada do dia. Peguei as etiquetas que sobraram e coloquei dentro da gaveta da Cassiana, minha colega de trabalho do guichê ao lado. Ela nem percebeu. Eliminei as provas contra mim – que pau no cu.

Chamei o próximo cliente. Era uma declaração de residência. Olhei por cima aquele texto mal escrito e pedi ao cliente se era ele quem estava declarando residência. Ele afirmou que sim e eu com sono e de saco cheio – não sei o motivo – fui logo pedindo o CPF e a Carteira de Identidade do cidadão. Ele de pronto me entregou e eu fui fazendo o cadastro dele. Preenchi os dados, tirei a foto, coletei a digital, digitalizei os documentos, tudo bem feito, me concentrando para não cometer nenhum erro. Feito o cadastro, fui colocar a seta na assinatura dele e vi que não fechava, era outro nome. Só então fui ler bem a declaração de residência e vi que não era ele quem declarava, e sim o titular do endereço que o fazia pelo cliente que ali estava. Quase bati no cara, que, na sua ignorância, disse que era ele quem declarava. Mas isso ficou só no meu íntimo. Ainda mais que o rapaz era do Morro XXV. Fiz de conta que estava tudo normal e reconheci a assinatura do senhor que havia declarado e despachei o rapaz.

Aí foi demais. Com a velhinha eu deixei de fazer o cadastro que precisava, e com o gurizão eu fiz um que não precisava. Sem falar nas duas etiquetas que geraram uma nota cancelada. O dia não estava para mim. Quando eu me levantava da cadeira e parava, via tudo estranho. Eu só pensava na minha cama deliciosa, no meu edredom, no conforto do meu quarto. E isso me fez ir até a cozinha e tomar três copos cheios de café puro, para ver se acordava, mas nem isso adiantava. Ô comprimidinho do “diaabo”!

No horário de almoço quase dormi sentado. Li a doutrina de Direito Civil e não absorvi nada. Só lembro que enquanto eu lia, imaginava no que estaria fazendo em casa naquela hora. Pensava que seria melhor ainda se estivesse na companhia da minha namorada, trocando uns carinhos, alguns beijos. Só que eu estava muito estressado, sem saco e chato para mais de metro. E a minha garota não merece isso.

A tarde veio e com ela mais alguns copos de café. Só dei uma acordada quando ocorreu um apagão e ficamos um bom tempo sem energia elétrica no Tabelionato. Não só no Tabelionato, mas em toda cidade de Lajeado. O atendimento teve de ser manual, o número de clientes aumentou e o serviço estava mais lento. A correria pegou e isso fez com que, de forma forçada, eu ficasse um pouco mais esperto. E o efeito do remédio estava passando também.

Quando cheguei em casa, por volta das 6:45 da tarde, fui “reto” ao sofá e me deitei. Que delícia. Aquele sofáSoninho gostoso nunca foi tão confortável. Aquela programação da televisão nunca foi tão agradável. Eu finalmente poderia deitar e dormir, nem que fosse no chão. Finalmente eu estava de pernas para cima, relaxando, sem pressão, sem me cuidar. Era só vegetar e curtir o momento “zem”. Só que o sono que eu queria sentir estava passando. Na hora errada. Agora sim eu poderia sentir sono sem problema algum. E ele estava indo embora. Comecei a ficar puto de novo. Só que eu estava tão cansado que nem isso conseguia fazer.

Depois do lanche e depois de ter falado com a minha garota linda pelo telefone, voltei a ingerir o tal comprimidinho porreta que me deixou “legalzão”. Já fazem meia hora que o tomei, e isso significa que já estou quase deitado na cadeira da escrivaninha do meu quarto na frente desse bom amigo computador. Os olhos diminuem e a cama atrás de mim me convida a celebrar a arte de dormir.

Um sentimento de satisfação toma conta de mim, porque agora sim, poderei dormir sossegado. Chegou o momento pelo qual eu esperei durante o dia inteiro. Então, boa noite pessoal. Ah, claro. As etiquetas da gaveta da Cassi eu recolhi no fim do dia, sem que ninguém soubesse que lá estavam, sem prejuízo à minha amiga.

Jhony, 21 de janeiro de 2009.

Written by jhonywalker

22 Janeiro,09 em 5:50 pm

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O Senhor do Red Bull

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Um longo dia de trabalho viria pela frente e eu já estava atrasado por conta do forte sono que fez com que eu ficasse além do tempo devido na cama, enrolando e criando coragem para levantar. Minhas noites não eram das melhores, não conseguia dormir direito, tinha dificuldades para pegar no sono, rolava até altas horas na cama. Resultado: acordava cansado e indisposto. Mas não poderia me dar o luxo de deixar de ir trabalhar.

Levantei mal humorado, em silêncio – como sempre -, tomei o café da manhã, o banho, peguei minhas coisas, coloquei na mochila tudo o que precisava, e o livro que estava lendo enquanto ia ao trabalho. O livro era Iracema, um clássico literário de José de Alencar. Como eu não havia lido na época do ensino médio, e agora, no ensino superior havia adquirido um imenso gosto pela leitura, resolvi ler o clássico e saciar minha curiosidade.

Estava eu saindo de casa quando lembrei de algo que, pela pressa, havia esquecido. O desodorante. O calor era forte. O dia começava como sol bastante intenso, e como eu estava atrasado, teria de caminhar rápido, o que resulta em suor excessivo, anda mais que suo além do normal. Após aplicar o desodorante nos “sovacos”, saí apressado. Da minha casa até a parada de ônibus são cerca de oito minutos mais ou menos. Aquele dia eu teria de fazê-lo em cinco.

Cheguei na parada de ônibus um pouco suado, um pouco ofegante, e logo fui abrindo o livro. Não demorou mais de um minuto para que o ônibus chegasse. Entrei e sentei na janela em um banco que ficava antes da catraca. No ônibus as pessoas de todos os dias, sentadas mais ou menos nos mesmos lugares de sempre. O ônibus se deslocou até a rodoviária, que era a parada seguinte da minha. Entrou mais uma porção de gente. Entre eles um velhinho que eu não havia visto ainda.

O velhinho era bem vestido. No estilo dele, mas era. Calça social em um tom bem discreto, camisa social devidamente abotoada e por dentro das calças, em um tom de verde musgo, mas um pouco mais claro. E sobre sua cabeça, um chapéu de feltro no mesmo tom das calças. O chapéu parecia novo, recém comprado, e escondia boa parte dos poucos fios de cabelo branco que tinha. Apesar da idade avantajada, ele não parecia ter aquele cheiro de naftalina costumeiro da terceira idade.

O senhor apresentou sua carteirinha de idoso para a cobradora da empresa (que era uma estupidez em pessoa, diga-se de passagem), pagou e sentou no banco a minha frente. Eu segui minha leitura de Iracema sem dar muita bola para muita coisa. Quando de repente o forte calor do dia começou a surtir efeito. E não era o calor que eu sentia, mas o efeito que surgia no senhor idoso: um forte odor de “asa”.

Era um cheiro azedo, forte, desconcertante. Cheguei a me cheirar várias vezes para me certificar de que não era em mim, de tão forte que era. Olhei para a cobradora e ela franziu a testa. No livro eu lia uma passagem onde falava, na forma poética do autor, de doces cheiros, e aquele cheiro de “asa” tomando conta do ônibus. Eu até pensava :”como fede essa a floresta da Iracema”.

Pobre do senhor, não tem culpa de suar, e feder a “asa”. O calor era forte, o tecido da camisa do velhinho não me parecia das mais leves, e o ar condicionado do ônibus não surtia efeito. Dei uma olhada na minha mochila para ver se não encontrava um desodorante. Mas não encontrei. Se tivesse, eu ofereceria para o senhor, amenizando o desconforto de quem estava na volta dele. O pior de tudo é que ele nem deveria saber do seu odor.

Fiquei com pena do senhor, mas em seguida pensei: “puta merda! se eu quase me atrasei para voltar para casa e colocar o desodorante, porque ele não poderia fazer o mesmo?”. Até porque ele era bem ajeitado, falta dinheiro não seria, ainda mais com aquele chapéu novinho que ele usava sobre a careca branca.

Foi um alívio quando cheguei na parada de ônibus próximo ao Tabelionato, desci, e dei uma bela de uma cheirada nas minhas axilas, sentindo o cheiro gostoso do meu desodorante. Senti-me o cara mais cheiroso do pedaço, e até minha auto-estima subiu. Fui trabalhar até mais feliz e disposto.

Written by jhonywalker

17 Janeiro,09 em 5:15 pm

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Desigualdade aos desiguais, para igualar

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De acordo com a nossa Constituição Federal de 1988, homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, segundo reza o artigo 5º, inciso I, do citado diploma. De fato homens e mulheres, perante a lei, são iguais. Porém, se sabe que há diferenças muito acentuadas entre os sexos, tornando bastante formal essa norma. Sabe-se que homens e mulheres se diferem muito, de acordo com inúmeros fatores sociais, culturais e históricos, além de aspectos biológicos e psicológicos. A verdade é que homens e mulheres não se sentem iguais, nem mesmo perante a lei.

É de conhecimento de todos que ao longo da história a mulher sempre esteve em situação de inferioridade perante o homem. O homem assumia o papel de chefe de família, com a responsabilidade de sustendo da mesma, enquanto a mulher deveria cuidar dos filhos, da harmonia do lar, além de servir de suporte ao marido. Essas palavras podem soar grosseiras, mas verdadeiras. O homem, por estar atuando em sociedade, criou seu espaço na mesma, e a mulher se mantendo apenas nos limites do lar e de uma vida social bastante limitada. É fato que fomos construindo uma sociedade machista, e nas últimas décadas estamos tentando corrigir esse grave erro, através das leis, através de uma mudança de cultura a longo prazo. A longo prazo pois ainda estamos em fase de adaptações para manter a real igualdade.

Hoje a mulher constrói seu espaço, aparece para o mundo e evolui, assumindo as mesmas responsabilidades que há anos atrás só os homens assumiam. As mulheres estão se tornando independentes, sem precisar se submeter ao sustento do marido, do pai, do homem com quem convive. O homem então se sente ameaçado pela mulher, pois não está acostumado a ter o seu lugar – ou o lugar que antes ocuparia – sendo ocupado por uma mulher. A sociedade em geral não se acostumou, homens e mulheres ainda não aprenderam a serem iguais.

Por essa razão que o artigo 5º da Constituição Federal apresenta em seu primeiro inciso esta questão. Só que apenas esse artigo não resolve o problema, pois ainda muitas mulheres sofrem com o legado histórico e cultural negativo que o mundo criou. Ainda vemos mulheres se submetendo a situações humilhantes sem amparo para reverterem o quadro em que se encontram. Por essa razão existem leis que as favorecem, como é o caso da lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), que “cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher” (art. 1º).

Essa lei, porém, se tornou alvo de discussão, sendo apontada como inconstitucional, por dar mais proteção às mulheres, fazendo com que elas detenham mais direitos que os homens, pondo por terra a igualdade defendida no já citado artigo 5º, I, da Constituição Federal. Dá total defesa às mulheres, e nenhuma aos homens, é o que muitos afirmam. Só que esse ponto merece uma reflexão especial se analisarmos o perfil social em que vivemos e, principalmente, no forte machismo que enfrentamos. Mais moderado, sim, mas ainda existente. Um homem se agredido pela mulher tem todo o direito de se defender perante a lei. Só que nossa cultura reprova isso, pois seria totalmente vergonhoso o fato de um homem, caracterizado por força física e vigor, ser agredido por uma mulher, fisicamente mais fraca. Pode acontecer, é claro, só que em geral a sociedade não vê com bons olhos, pois ainda não amadureceu para a igualdade.

Se analisarmos o número de mulheres que sofrem violência doméstica diariamente no nosso país, não haveria discussão em relação à inconstitucionalidade ou não da Lei Maria da Penha. Não por parte de operadores ou futuros operadores de Direito. Pois sabemos que uma Constituição, além de limitar o poder de governadores, também deve atentar ao bem-estar da população, segundo sua cultura, suas necessidades, e o momento histórico em que se encontra. E vivemos em uma sociedade onde muitas mulheres ainda necessitam do amparo de leis e de proteção para não precisarem se tornar tão submissas e inferiores.

Não vivemos mais em tempos de donas de casa. Vivemos em um tempo onde as mulheres buscam realizações profissionais, liberdade e independência financeira, bem-estar pessoal e uma vida social digna, sem necessitar de um marido para sobreviver, e portanto, sem precisar se submeter ao mesmo. Vivemos em uma fase onde as mulheres cada vez mais conquistam seus espaços e direitos. Porém a igualdade, ainda não como um todo, pois não estamos de todo maduros para que haja a igualdade real, material, e não apenas a formal.

E por falta dessa maturidade, pela infantil e grosseira insistência dessa descendência que trazemos enraizada em nossos genes através da história e cultura, necessitamos de leis como a 10.340 de 07 de agosto de 2006, supracitada. E necessitamos desse tipo de lei para que possamos manter a igualdade entre homens e mulheres, para que elas não sofram abusos machistas, se sintam protegidas, para perderem o medo e viver de igual para igual com os homens, podendo fazer de seus sonhos uma realidade, podendo se sentir livre para atingirem o sucesso que almejam, se desprendendo do preconceito, e assim fazendo valer o que assegura nossa Constituição em seu art. 5º, I. São válidas, sim, as leis que defendem mulheres, pois só assim conseguiremos que homens e mulheres andem juntos, com igualdade, em clima de harmonia e bem-estar, construindo uma sociedade mais justa e sem preconceitos, rumo ao progresso e crescimento do Brasil. Afinal, esse é um dos objetivos de nossa Constituição Federal, no inciso IV do art. 3º, que transcrevo:

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: (…)

IV – promover o bem estar de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. [grifei]

Para atingirmos um objetivo fundamental, precisamos desigualar, para no futuro termos uma sociedade igual. É o que diz aquela velha frase filosófica: “igualdade para os iguais, desigualdades para os desiguais, na medida em que eles se desigualam”. Está na hora de protegermos nossas mulheres e garantirmos um Brasil mais igual, menos diferente.

Written by jhonywalker

21 Dezembro,08 em 9:00 pm

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Maldito Lucky Strike…

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Era um sábado normal, como todos os outros. Mas era normal para todo mundo, menos para mim. Eu ainda vivia uma fase de transição. Uma transição benéfica. Só não havia me habituado por completo ainda, me sentia fora do rumo a qual eu tinha me habituado. O dia estava frio, com um tímido sol querendo ora surgir, ora se esconder. Mas eu estava animado, com frio, sem frio, chuva, sol, para ir até o clube (Soges) e ver meus amigos jogar futebol pelo Barril Júnior. Cheguei lá cedo da tarde, meio perdido, sem nenhum conhecido para conversar, até que encontrei o Adrian.

Ficamos conversando, assistindo ao jogo. Aliás, metade do jogo, porque quando cheguei já estava no fim do primeiro tempo. O placar marcava 4 a 1 para o Barril, que, de forma desastrosa, deixou que o fraco time oposto encostasse no placar, terminando o jogo em 4 a 3. Pelo menos haviam ganho. Pensei que eu tivesse dado azar a eles, porque quando eu cheguei, tomaram dois gols. Mas pensei: “ainda bem que não vim mais cedo, porque se não teriam tomado uns cinco”.

Eu e o Adrian conversamos por um longo tempo, até ele sair com umas amigas, e eu fiquei porlá, meio zonzo, perdido. Mas eu estava em uma fase de “foda-se”, só queria levar a vida mais sossegado e sem estresse, sem ficar me incomodado com o passado, e muito menos vir a me preocupar no futuro. Só queria aproveitar um pouco do tempo que perdi na companhia dos amigos. E era isso que eu ia fazer naquele sábado que começava a ficar cada vez mais gelado.

Lembro que era a primeira vez que eu usava minha jaqueta verde, minha favorita. Paguei muito caro por ela, e tinha até pena de usá-la. Teria que ser usada em uma ocasião muito especial. Só que antes de sair de casa fui tomado por aquele tipo de pensamento salvador do mundo, do tipo: “todo dia, toda hora é uma ocasião especial”. Vesti a jaqueta, pus um perfume e “fui-me”. Meu pai me levou porque eu não me animava muito em sair sozinho de carro. Pelo menos com o do meu pai não. Foi uma fase de desentendimento entre mim e o Monza 89 do “velho”.

Pois bem. O Barril saiu de campo com a vitória, e isso era um bom motivo pra comemorar. E tratando-se de Barril, se comemora com cerveja e mais cerveja. Entre toda a gurizada, eu era o único (creio) que não jogava futebol. Já havia jogado com aquele pessoal, mas por causa de lesões nos dois joelhos – como se essa fosse a única causa, excluindo o fato de eu jogar mal pra caralho -, abandonei o bando e me dediquei a prática de ouvir música. Pelo menos nesse esporte que pratico o risco de me lesionar é bem menor. Por falar em música, estava eu, com meu mp4 nos ouvidos, durante grande parte do tempo. E isso fazia com que eu batesse no chão com meu All Star branco (meu favorito) o tempo todo, no ritmo da música. E a cerveja começou a rolar solta entre a galera. As fichas pras cervejas até hoje eu num sei certo de onde vieram. Talvez tenham sido pagas pelo Wilson, ou então pelo irmão do Edd. Não sei mesmo. Só sei que me ofereceram e eu não recusei. Bebia timidamente aquela gelada cerveja, porque fazia tempo que eu não bebia pra valer. E da forma tímida, fui passando pras fases seguintes, que nem sei se tem nome.

O meu grande amigo ali era o Roberth. Amigão mesmo, e fui lá na Soges para conversar com ele, e aproveitar o sábado com ele. E com ele, tomei muita cerveja aquele dia. As cervejas deveriam ser tomadas em conjunto, de forma amigável. Até porque eu nem sabia quem estava pagando. As fichas vinham eu não sei de onde, mas eu acompanhava o Roberth até a copa para pegar as cervejas. Tomávamos metade lá na copa, e voltávamos com a outra metade para dividir com o resto do pessoal. Coisa de pau no cu! Mais pau no cu era quando eu pagava alguma cerveja e não levava lá no pessoal para dividir, e pelo contrário, tomava com o Roberth, às escondidas. Nós estávamos tirando vantagem dos próprios amigos. Nem sei por que se faz isso. Mas naquele momento, já meio “alegrinho”, eu só queria era ficar podre de bêbado. Leia o resto deste post »

Written by jhonywalker

23 Novembro,08 em 9:30 pm

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ADD

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Associação Desportiva para DeficientesNo dia 19 de agosto, tive a oportunidade de participar de uma bela palestra motivacional, intitulada “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez”, apresentada por Esteven Dubner, membro da Associação Desportiva para Deficientes (ADD), órgão que é mantido com a finalidade de auxiliar deficientes físicos do mundo inteiro, graças às brilhantes palestras de Esteven e da ajuda de empresários e de quem se dispõe a contribuir financeira ou voluntariamente com a causa.

Esteven deu uma linda lição de vida ao mostrar a todo o público presente que nós, “andantes” (como ele nomeia), temos de agradecer todos os dias por todas as nossas faculdades e possibilidades de ir e vir. Através de vídeos ele nos mostrou, com histórias reais de superação, que nem mesmo uma deficiência física é capaz de tirar a alegria e a vontade de viver e encarar desafios. É o que venho afirmando nos meus artigos publicados aqui neste blog: temos a felicidade que precisamos nas mãos, e para sermos felizes só devemos nos a ela. E as pessoas que vimos nos vídeos mostrados por Esteven são o maior exemplo disso.

Professor Esteven Dubner

Professor Esteven Dubner

Em um verdadeiro show, o palestrante falou sobre nossa impotência diante dos pequenos problemas, que tornamos em um monstro. Muitas vezes esquecemos de lutar um pouco – pelo menos um pouco – para superarmos as adversidades da vida. E ao contrário disso, de forma errada, nos lamentamos mais e mais. Devemos levar a vida menos a sério, devemos nos entregar mais aos prazeres da vida, vivendo cada momento intensamente. Porque cada momento de nossa existência é uma dádiva, é um presente. Temos todos os recursos necessários para uma vida digna e feliz, só devemos saber usá-los. E encontramos esses recursos a nossa volta. O problema é quando fechamos os olhos para aquilo que está diante de nós. O pior cego é aquele que não quer enxergar. A maior deficiência do ser humano esta no coração, em fechá-lo para as alegrias que a vida tem a nos oferecer. Leia o resto deste post »

Written by jhonywalker

7 Setembro,08 em 10:30 am

Publicado em Reflexões